Loucos são os outros

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Noite de sexta-feira e a multidão se harmoniza para ouvir chorinho em frente a um bar. De repente o som de uma garrafa explodindo nos paralelepípedos. Gritos e uma impressionante seqüência de garrafadas. As pessoas procuram a origem da confusão e afinal detectam uma mendiga colérica a lançar cascos de cerveja sobre pessoas e carros. Furioso porque sua picape foi atingida, um policial saca um revólver e avança em direção à mulher, que não se intimida e vitupera. O policial olha alternadamente para a multidão e para a mendiga, visivelmente tentado a executá-la à queima-roupa. Se estivesse só, dispararia? Mas não diante de tanta gente, que ele não é maluco… A mendiga é afinal contida por vários homens, lançada sobre cacos de vidro e espancada. Quase uma hora depois, desfalecida, é encaminhada ao hospital psiquiátrico.

A convivência com a doença mental, em suas inúmeras e perturbadoras variantes, é um dos mais complexos problemas éticos da vida em sociedade. Qualquer opinião sobre o tema precisa levar em consideração a dor sofrida e causada pelo doente mental. Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, o psiquiatra Alexander Almeida verificou que médiuns do espiritismo alucinam como pacientes esquizofrênicos, mas não apresentam sofrimento psíquico nem desajuste social. De áugure na Antigüidade, a interno de hospício após a Idade Média, o louco percorreu um penoso caminho de segregação. Na década de 30, a descoberta dos efeitos amnésicos e antidepressivos do eletrochoque disseminou um tratamento poderoso cujo abuso se tornou infame. O advento dos psicofármacos, pouco depois, abriu as portas para uma terapêutica aparentemente mais humana. Entretanto, os efeitos colaterais dessas drogas podem ser tão adversos que seu uso muitas vezes resolve apenas o problema dos que convivem com o louco, e não o seu próprio sofrimento. Impregnado e embotado, o louco medicado passou a habitar um mundo cinzento e retesado.

Hoje em dia, drogas de última geração prometem restaurar vida normal ao doente mental. Mas são remédios caríssimos cujas patentes pertencem às grandes corporações farmacêuticas. Via de regra o governo privilegia as drogas antigas e baratas devido às patentes vencidas. Investe também em métodos alternativos que tratam a doença mental através da integração comunitária, psicoterapias, arte, paciência, bom humor e amor. Resulta desse contexto um choque violento entre o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira de Psiquiatria, numa série de oposições simplistas mas esclarecedoras: saúde pública versus privada, comunidade versus consultório, pobre versus rico, amador versus profissional, metafísica versus ciência, necessidades populares versus interesses das grandes corporações.

Um absurdo dentro do outro como numa boneca russa: a fragilidade da miséria, o descontrole da polícia, a turba raivosa, o abandono da família, a dedicação insana dos profissionais da saúde, a exposição do louco à demência alheia, o remédio barato e obsoleto, o remédio bom de custo proibitivo, os cientistas em alienação molecular e os executivos malucos por dinheiro. Que loucura…

(Uol)

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Vincent van Gogh

Histórico de uma doença

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Concluída a escola, o jovem Vincent van Gogh vai trabalhar na compra e venda de objetos de arte, primeiro em Haia, depois em Londres. A infelicidade no amor o lança na primeira depressão grave. Seus pensamentos voltam-se para a religião. Passa quatro anos na Bélgica trabalhando como pastor. Ali, ajuda no que pode e luta pelos direitos das pessoas. Contudo, isso desagrada a Igreja, da qual é expulso, fazendo-o mergulhar em nova crise. “Minha única angústia é descobrir como posso ser útil ao mundo”, escreve ao irmão Theo, seu mais íntimo confidente.

Somente aos 27 anos, Vincent decide ser pintor. Lança-se ao trabalho com enorme intensidade. Em 1886, vai viver com Theo em Paris, onde sua saúde piora. Começa a sofrer de cãibras na mão esquerda. Passados os acessos, fica perturbado e a memória falha por breves períodos – primeiro indício da epilepsia diagnosticada mais tarde. O gosto do pintor pelo absinto contribui para o agravamento de seu estado. Sabe-se hoje que a bebida contém uma substância que favorece ataques epilépticos e psicoses. Seu temperamento explosivo e as oscilações de humor o tornam persona non grata para vários de seus conhecidos. “É como se fossem duas pessoas: uma delas, de grande talento, culta e sensível; a outra, egoísta e fria de sentimentos”, descreve Theo.

No início de 1888, Vincent vai para o Sul da França, “cansado e desesperado”, como ele próprio diz. Ali, sintomas de um grave transtorno psíquico manifestam-se com crescente nitidez. Períodos de atividade febril alternam-se com apatia e esgotamento total – sinais típicos de depressão maníaca. Sentindo-se só, pede ao amigo Paul Gauguin que se junte a ele. Juntos, os dois pintores fundam o “Estúdio do Sul”. Mas este relacionamento deteriora, culminando numa catástrofe: em dezembro de 1888, van Gogh o ameaça com uma navalha e termina por amputar a própria orelha.

No hospital, o primeiro diagnóstico: psicose grave. O médico Felix Rey também suspeita de epilepsia larvada, em que os acessos convulsivos têm forma bastante amena. Em compensação, imperam outras ocorrências psíquicas e o paciente oscila entre euforia extrema e depressão profunda, acompanhadas de angústia e insônia. Alucinações e mania de perseguição integram o quadro dos sintomas, bem como pronunciada emotividade, que, com freqüência, culmina em solicitude exagerada ou religiosidade extrema.

A epilepsia de lobo temporal é tida como a explicação mais provável para o perturbado estado mental de van Gogh. Rey o trata com brometo de potássio. Passados alguns dias, o artista se recupera. Embora o médico chame sua atenção para os perigos do absinto, o pintor o ignora. Essa é uma das razões para as várias recaídas, que requerem repetidas internações. Seu estado psíquico é tão instável que, em maio de 1889, interna-se espontaneamente no sanatório de Saint Rémy.

O médico da instituição confirma a epilepsia, mas suspende o tratamento com brometo de potássio. Apesar dos episódios de uma grave psicose, van Gogh produz no ano seguinte mais de 300 obras. Depois, muda-se para Auvers-sur-Oise, nas proximidades de Paris. Nos campos ao redor de Auvers, pinta algumas de suas grandiosas paisagens. Em carta a Theo, menciona que gostaria de aumentar sua paleta de cores e pede apoio ao irmão. Três dias depois, o grande artista se mata com um tiro no peito.

Retirado do Gênios e Loucos

Loucura

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A loucura tem sido percebida de diferentes formas ao longo da história. Se na Antiguidade foi concebida como manifestação divina e na Idade média como resultante de possessões demoníacas, no Século XVIII ganha status de doença mental, passando a exigir mecanismos segregadores e excludentes de tratamento, culminando com o surgimento do hospital psiquiátrico. Somente após a II Guerra Mundial é que podemos observar movimentos que tentaram reformular as práticas dominantes e oferecer uma nova perspectiva de tratamento ao transtorno mental.

Nesse contexto destaca-se a Psiquiatria Democrática Italiana, que influenciou de forma decisiva a Reforma Psiquiátrica Brasileira. No Brasil o movimento em busca de uma reestruturação do atendimento em Saúde Mental inicia-se a partir da década de 70, onde constatamos o surgimento de inúmeros serviços substitutivos como os CAPS e de outros dispositivos tais como as Residências Terapêuticas, o Programa de Volta pra Casa e outros, que têm como objetivos promover a autonomia e o resgate da cidadania do portador de transtorno mental. Em Campina Grande o movimento da Reforma Psiquiátrica ganhou ênfase a partir da Intervenção Federal decretada num dos hospitais psiquiátricos da cidade, culminando no seu descrendenciamento do SUS, no seu fechamento e no fortalecimento de uma rede substitutiva de Saúde Mental. Neste trabalho realiza-se um estudo sobre a concepção dos usuários e familiares acerca de conceitos como cidadania e saúde mental, destacando-se alguns temas como participação familiar, atendimento oferecido no CAPS, caracterização do hospital psiquiátrico e o estigma e preconceito que cercam a doença mental. Foram entrevistados para esta pesquisa 15 usuários e 15 familiares de um CAPS-Centro de Atenção Psicossocial de Campina Grande-PB.

O material resultante das entrevistas, gerado a partir de um roteiro de entrevista semi-estruturada, foi gravado e transcrito na íntegra e analisado com base nos pressupostos da Psicologia Social Discursiva. No que se refere às discussões dos resultados podemos evidenciar que dentre as explicações dadas pelos entrevistados sobre o transtorno mental destacam-se as causas biológicas, psicossociais, sócio-econômicas e psicológicas.

Ao conceituar o transtorno mental foi marcante no discurso dos entrevistados a descrição da sintomatologia da doença e das situações de crise. A importância da participação familiar também foi mencionada pelos entrevistados ao avaliarem a norma de funcionamento do CAPS que exige a participação no Grupo de família.

De suma importância foram os relatos dos entrevistados sobre o atendimento no CAPS e suas caracterizações sobre o tratamento oferecido no hospital psiquiátrico, onde na totalidade da amostra o CAPS teve uma avaliação positiva do funcionamento e aspectos tais como medicação excessiva e isolamento familiar foram citados sobre a internação psiquiátrica. No que se refere à cidadania ressaltamos que para grande parte dos entrevistados este conceito está atrelado à aquisição de documentos e ao ato de votar, destacando–se em seguida a concepção da cidadania ligada à ações de solidariedade e auxílio a os necessitados, ao direito de ser atendido num serviço de saúde,sendo marcantes os discursos que abordam o preconceito e estigma dos quais os portadores de transtornos mentais são alvos.

Retirado( PALAVRAS-CHAVE: Discurso, Saúde Mental, Reforma Psiquiátrica)

UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA
MESTRADO INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE COLETIVA
(Lívia Sales Cirilo)