Satã, Lúcifer e Baphomet não são o mesmo. Nem de longe.

Retirado do Medium.com

93!

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Ele não estaria nada feliz com essa confusão toda, caso ele existisse

“ Prazer em conhecê-lo

Espero que tenha adivinhado meu nome

Mas o que o está confundindo

É somente a natureza de meu jogo”

Rolling Stones – Sympathy for the Devil

Não dá pra negar a influência e importância da figura do demônio em nossas vidas. O cara é tão influente e importante que muitas igrejas e líderes pro aí passam mais tempo falando sobre o tinhoso do que falando sobre o próprio messias. Livros sobre demônios existem basicamente desde sempre, e muito da nossa fé (desde suas versões mais primordiais, inclusive) se baseia no embate entre o Bem e o Mal, seja numa luta cósmica infinita, seja dentro de cada fiel, seja da forma que for. Mas é só olhar: quando se fala de Deus, invariavelmente vem alguém falar da sua contra parte chifruda, do fedido, do inimigo, do próprio Satanás. Porém, é claro, popularidade não indica conhecimento. Até hoje não é raro encontrar gente que coloca nas costas dele a culpa por todo e qualquer mal que aconteça, desde problemas de saúde, amorosos, financeiros e afins até problemas de ordem mundial e política. Até porque, quem nunca esbarrou com teorias da conspiração acerca da família real britânica e seu suposto envolvimento com o chifrudo? Ou a Nasa? Ou o presidente Trump? Ou nosso nem-tão-amado presidente Temer? Mas para começar a falar sobre o assunto de forma séria e sem se basear em mitos e boatos, é preciso começar definindo bem as coisas e separando o joio do trigo. Afinal de contas:

Do que estamos falando quando falamos de Satã, Lúcifer e do Diabo?

Satã, Satanás, Shaitan, Iblis…

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Inimigo, Pé-fendido, Chifrudo, Pai da Mentira, Capeta, Cheiro de Enxofre, O do Tridente, Tinhoso, Bode, Maldito, Encardido, Desgraçado, Traidor, Cramumhão, Malvadão, Hades, Rei do inferno…

1 Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome;

3 E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.

Mateus 4: 1–3

Comecemos do começo: ele, um dos poucos citado nominalmente no livro sagrado de mais de 80% dos brasileiros e uma das figuras mais universais entre as religiões monoteístas: Satanás.

Não, Satanás não é invenção cristã. Na verdade, Satanás parece ser mais universal até mesmo que Jesus Cristo, até por ser um título e não uma entidade. No livro sagrado para os muçulmanos, o Corão, o termo “al-Shaitaan” é citado 87 vezes, enquanto Iblis é citado 11 vezes. Nesse contexto, o termo al-Shaitaan pode ser traduzido como “o opositor”, enquanto Iblis é dado como uma espécie de líder dentre os espíritos malignos.

Porém, como todos sabem, tanto o islamismo quanto o cristianismo tem uma raiz mais antiga no judaísmo. Para essa religião, a palavra revelada se dá no Torá, e é de lá que vem as primeiras aparições dessa figura tão relevante. Nos livros de Jó, Zacarias e nos Salmos, ele é citado em um total de 23 vezes, sendo por vezes tomado como um título dado aqueles que se opõem a obra de Deus e de seus anjos. Em hebraico, Satanás é chamado Satan, ou Shaitan, ou numa versão mais antiga, ShTN. Assim mesmo, sem vogais.

Em resumo, numa visão mais cristã da palavra/ideia, Satã, ou Satanás, é portanto o adversário de Deus. É a serpente que entrou no Eden e convenceu Adão e Eva de comer do fruto proibido, segundo algumas interpretações da Bíblia. É a entidade que tenta Jó a desistir de sua fé em Deus. É aquele que aparece para Jesus no deserto tentando convence-lo a largar a senda divina e sua missão na terra em troca de poderes, reinos e tudo mais. Esse é Satã: ardiloso, mentiroso, opositor, enganador, traíra, a pedra no sapato de Deus. Basicamente aquele que trouxe o pecado ao mundo com o intuito de desviar a obra máxima de Deus de seu propósito.

Ao tomarmos a origem da palavra, vemos que Satã é muito mais um título relegado aos inimigos, opositores e traidores do que propriamente uma entidade. “Aquele que se opõe” é uma tradução mais adequada ao termo, o que faz com que toda oposição a algo possa ser tido como “satânico”. Dessa forma, líderes e pregadores protestantes são o Satã da igreja católica, tal como padres, bispos e o papa são o Satã dos protestantes (e os ateus, como sempre, o Satã de todo mundo).

Demônio: de espírito natural à encarnação do mal

Como tudo no estudo de religião, mitologia e afins, o termo e o conceito do Demônio não é algo recente. Nem único. Falar de uma origem para tal ideia é bem complicado, mas podemos voltar para a Grécia Antiga e de lá traçar alguma origem.

A palavra Demônio é uma corruptela, uma adaptação de Daemon ou Daímôn, que pode ser traduzido do grego clássico como “divindade, espírito”. O conceito grego dos Daemons é próximo ao conceito árabe dos gênios: espíritos da natureza, amorais, podendo ser bons ou ruins dependendo das circunstâncias. Interessante notar que, para os antigos, a noção de bem e mal era muito diferente da nossa, o que pode levar a interpretações bem erradas da nossa parte. Um grande exemplo de tal fenômeno é o deus grego Hades, chamado Plutão pelos romanos: um deus dos mortos, senhor do submundo e comandante das legiões “infernais” (inclusive, o próprio nome Hades é usado para descrever o inferno para algumas tradições cristãs). Porém, apesar do que possa parecer, não havia uma conotação ruim ou negativa para o senhor dos mortos. Para nós, membros de uma sociedade profundamente cristã, é muito difícil pensar em tal conceito, mas tal distanciarmos nosso pensamento é vital para entendermos culturas mais antigas.

De toda forma, os Daemons não eram ruins. Ao menos não de todo. A entidade chamada Adefagia, por exemplo, era a patrona das cozinhas e cozinheiros, mas também era a entidade por trás da gula. Bia, chamada Vis pelos latinos, é a personificação da força bruta e a violência humana, seja ela de qual natureza for.

E nesse ponto entra o cristianismo, fazendo aquilo que todos os outros povos praticamente fizeram ao longo da história: transformar as entidades cultuadas pelos gregos e romanos em entidades malignas. Esse ponto de inflexão foi posterior ao reinado de Constantino, o imperador romano que passou o culto cristão de proibido para aceitável dentro dos limites do império, o que permitiu que as seitas monoteístas que vinham florescendo no império tomassem cada vez mais forma e acabassem por se tornar o cristianismo, séculos depois. Com isso não só os Daemons como também os deuses, heróis, semi-deuses e outras figuras míticas passaram ao papel de entidades malignas, criaturas infernais que servem ao já citado Satanás em sua missão de corromper a humanidade.

Lúcifer: o arquétipo universal personificado na forma do anjo caído

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“ Eu nego qualquer ordem, qualquer ideia

Eu não acredito em qualquer abstração e doutrina

Eu não acredito nem em Deus, nem no senso comum

Estou farto com esses deuses! Basta dar-me um ser humano!

Que ele seja como eu:

vago, imaturo, insatisfeito e ambíguo”

Behemoth – In the Absence ov Light

E chegamos aqui na estrela da festa, quase literalmente: Lúcifer, a figura cercada de mitos e interpretações, figurinha carimbada e anjo mais famoso do panteão cristão. Para se ter uma ideia, ao buscar por “Lúcifer” no Google temos 57.900.000 resultados. Ao buscar por “Arcanjo”, temos 10.800.000. Quando o termo é “Anjo”, retornam 57.700.000 resultados. 200.000 a menos que Lúcifer. Dentre todas as figuras, imagens e mitos religiosos modernos, temos ai com certeza uma das figuras mais atrativas, instigantes, comentadas e lembradas pelo grande público. Mas, afinal de contas: quem é Lúcifer?

Como nos casos acima, comecemos falando sobre a palavra Lúcifer: o termo surgiu primeiro, em um contexto cristão, na tradução conhecida como Vulgata, a tradução da bíblia para o latim feita por São Jerônimo. Nessa versão, o nome de Lúcifer é citado somente 6 vezes. Interessante notar que o termo, que pode ser traduzido como “Aquele que traz a luz” se refere a mais de um conceito distinto. Um dos usos e assimilações mais usados é “Estrela D’Alva”, ou “Estrela da Manhã”, em uma analogia astronômica direta. Estrela D’Alva, ou Estrela da Manhã é o nome dado ao planeta Vênus, por ser o primeiro corpo celeste a aparecer a noite e o último a sumir de manhã. Esse planeta foi então, erroneamente, chamado de estrela da manhã, quando se referia ao mesmo na sua aparição matutina, ou estrela d’alva, quando se referia ao mesmo na sua aparição noturna, como primeira “estrela” da noite. Então a associação direta entre Lúcifer e uma estrela é bem clara, mas qual o motivo de ligar uma figura dessas com um astro?

Pra responder essa pergunta precisamos entender um ponto de extrema importância: Lúcifer não é só somente um anjo (ou demônio, como preferir). Lúcifer é um arquétipo, um mito. E como todo arquétipo, ele é bem universal. Segundo Jung, psicanalista discípulo de Freud, arquétipo é:

[um] conjuntos de ‘imagens primordiais’ originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo.

Portanto, Lúcifer é universal, não limitado a uma fé ou credo específico. Esse arquétipo, ou mito, diz respeito a uma entidade divina ou semi-divina que, por ação própria e deliberada se rebela contra a autoridade divina máxima em favor da humanidade e, com isso, acaba banido ou perde sua condição divina. Um dos melhores exemplos dessa história, fora a bíblia, é o mito grego do titã Prometeu:

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Prometeu: o Lúcifer antes de existir Lúcifer

Em resumo, Prometeu era um Titã que, segundo algumas tradições, foi o criador da humanidade a partir do mando de Zeus. A esse Titã foi dada a ordem de não interferir na humanidade, deixando a mesma em sua condição animalesca, pois esse era o desígnio de Zeus. Porém Prometeu optou por não cumprir tal ordem, e roubou da forja do deus Hefésto/Hefaisto a chama sagrada e a trouxe para a humanidade, ensinando o ser humano a controlar o fogo, elemento vital para o seu desenvolvimento. Por essa insolência, Zeus acorrentou Prometeu a uma rocha, na qual ele foi condenado a ser bicado por um pássaro e ter seu fígado comido eternamente por sua insolência.

Essa história também não é exclusiva dos gregos. Entre os egípcios, o deus Set (mais tarde chamado Sífon), apresenta uma história similar. Entre os hindus temos Sukra, chefe dos Daityas, deuses rebeldes que lutaram contra a ordem celestial. Além disso, os hindus podem identificar Lúcifer entre os Devas e Asuras, segundo seus mitos próprios. Até mesmo os maias e astecas possuem Lúcifer entre seu panteão, que atende pelos nomes de Kukulkan ou Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada (sobre como que a serpente encaixa no restante da história eu falo depois).

Então é fácil ver que Lúcifer ta mais pra uma versão hebraica/cristã de uma história muito mais antiga do que pra um conceito único e exclusivo. Mas o que é essa história e sobre o que ela fala?

Lúcifer, Prometeu, Set e tantos outros são mitos. E os mitos tem por função, entre outras coisas, falar sobre o ser humano. Histórias como a de Hércules/Héracles, a morte e ressurreição de Osíris, o caldeirão mágico de Ceridwen, a barganha de Odin em troca do conhecimento dentre outras milhares falam sobre o Homem, a jornada do Herói e possuem significados bem maiores e mais profundos do que parecem a primeira vista. Veja: Lúcifer, por orgulho e vaidade, se virou contra Deus e seus anjos em um combate que já estava perdido antes mesmo de começar. Esse combate, como esperado, terminou com a expulsão do anjo dos céus e o lançou as chamas do Inferno, onde ele sofrerá pela eternidade, longe de Deus e da humanidade. Porém, mesmo ardendo no Abismo, o orgulho de Lúcifer não cessa e sua cabeça se mantém erguida. Como bem resumiu o poeta inglês John Milton:

É melhor reinar no inferno do que servir no céu

John Milton – Paraíso Perdido

Porém, antes da queda, segundo o mito cristão, Lúcifer se fez serpente e levou a humanidade a pecar, comendo do fruto da árvore do conhecimento, o que trouxe o pecado para o mundo. Assim, Adão e Eva, influenciados pelo anjo caído, obtiveram o conhecimento sobre sua condição e foram expulsos do edílico Éden. Não muito distante da história de Prometeu que, ao dar a humanidade a chama sagrada, foi condenado ao tormento eterno e marcou o fim da era de ouro da humanidade.

Então fica fácil ver sobre o que tudo isso se trata: o conhecimento leva a queda e a separação do divino. Mas também o conhecimento liberta e permite ver além do que olhos cegos pela ignorância podem ver. Adão e Eva estiveram pelados e entregues ao acaso o tempo todo, mas não possuíam conhecimento de tal. Ao comerem do fruto e se libertarem, puderam construir pra si todo o necessário para a própria proteção e a fundarem sua própria família, dando continuidade ao legado humano. Deixaram para trás sua condição animal e se tornaram humanos, semelhantes ao criador.

“Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal
Gênesis 3:22

Porém Lúcifer não é identificado somente como o anjo caído, ou ao arquétipo da queda humana. Na mesma bíblia temos dica de uma relação um pouco (muito) mais “polêmica”. Como eu disse ali em cima, Lúcifer é identificado como “Aquele que traz a luz”, ou como a estrela matutina, a estrela que anuncia a chegada do dia e da luz do sol. E na própria bíblia vemos um outro personagem se identificando como o portador da luz: Jesus de Nazaré, o Cristo, como podemos ver nos versículos abaixo:

“Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e a resplandecente Estrela da Manhã
Apocalipse 22:16

“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações.”

2 Pedro 1:19

Em latim fica ainda mais bonita e direto:

“et habemus firmiorem propheticum sermonem cui bene facitis adtendentes quasi lucernæ lucenti in caliginoso loco donec dies inlucescat et lucifer oriatur in cordibus vestris”

Epistula II Petri 1:19

Ou seja: o próprio Jesus era identificado como sendo o portador da luz, a estrela da manhã e a estrela d’alva. Jesus era, em um sentido mais literal, Lúcifer, aquele que traz a Luz ao coração dos homens e veio tirar a humanidade não das trevas da ignorância, mas sim das trevas do pecado e da vida desregrada.

Pois é.

Em resumo, Lúcifer é aquele que traz a luz pra livrar os homens da ignorância. Em um primeiro momento ele foi identificado como aquele que libertou o Homem da ignorância através do fruto do conhecimento. Em um segundo momento, aquele que liberta o Homem do pecado através do Messias, que vem refazer a aliança de Deus com a humanidade. Por isso Lúcifer é mais identificado como um arquétipo do que como um ser individualizado.

Baphomet: a queda dos templários e o ocultismo moderno

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Quem tem medo do tinhoso?

E pra fechar esse compêndio de entidades, criaturas e mitos ligados ao bode preto não podia faltar ele: o próprio Bode Preto: Baphomet, ou a suposta representação gráfica do demônio/diabo/satanás/lúcifer em pessoa (ou quase).

Antes de mais nada, importante frisar que Baphomet é uma grande colcha de retalhos simbólicos, filosóficos, históricos e religiosos. Uma representação gráfica elaborada pelo ocultista moderno Éliphas Levi (como dá pra ver abaixo das patas de bode o próprio nome do autor), um mago, escritor, pensador e filósofo do século XIX. Éliphas Levi é, na verdade, o codinome que Alphonse Louis Constant passou a usar para escrever sobre temas pouco ortodoxos. Mas afinal, o que significa seu desenho? Como de costume, um pouco de história antes:

O nome Baphomet teve sua primeira aparição em uma carta escrita pelo cruzado Anselmo de Ribemont para o Arcebispo de Rheims. Em uma tradução livre, a carta diz algo como:

“Enquanto o novo dia nascia, eles chamaram por Baphometh, e nós rezamos em nossos corações por Deus, e então atacamos e forçamos todos eles para fora da cidade”

Anselmo de Ribemont – Julho de 1098

Mas quem são “eles”? Anselmo foi um soldado na primeira cruzada que lutou para libertar Jerusalém do domínio dos muçulmanos. Portanto é razoável supormos que “eles” eram os inimigos muçulmanos ou algum povo pagão que vivia na região. O que indica que possivelmente havia, entre aquele povo, o culto a alguma figura associada com essa entidade.

Porém foi só em 1307, na França, que o nome Baphomet e todo mito que o cerca veio a toa. Na noite de 13 de Outubro daquele ano, uma sexta-feira, o rei Philip IV da França começou a caça aos templários, acusados de vários crimes, dentre eles os de heresia, conspiração contra o papa, posse de bens (lembrando que os templários eram soldados que faziam votos de castidade e de pobreza, o que os proibia de possuir qualquer riqueza), homossexualidade, pratica de feitiçaria e satanismo. Uma lista de crimes bem pouco esperada de uma ordem católica que tinha por propósito defender a cristandade no oriente.

(Reparou no dia em que tudo isso começou? Sexta-feira, dia 13/10/1307. Foi daí que nasceu toda a mística por trás das sextas feiras 13, inclusive.)

A questão é que, ao torturar os membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a igreja esperava extrair deles confissões. E os cavaleiros acabaram confessando boa parte de seus crimes (se eles de fato cometeram ou se confessaram uma mentira no intuito de escapar da tortura, é algo que nunca saberemos), inclusive de cultuar um demônio de aparência bestial chamado Baphomet. Essa acusação seria, por si só, suficiente para acabar com a ordem e enviar ao menos seus líderes para a fogueira, mas a igreja extraiu muito mais.

Porém o tempo passou, e Baphomet ganhou outra roupagem. Se antes ele era uma figura semi-mítica, um nome a se temer e um motivo para se torturar e executar desafetos, nas mãos de Éliphas Levi ele se tornou um símbolo de grande poder e muitos significados.

Como é “costume” dentre do ocultismo (e muitos podem até defender que o próprio termo ocultismo vem dai), Baphomet é a compilação e o resumo de uma série de ensinamentos místicos e filosóficos. Em si residem conceitos, crenças, práticas e segredos passados de geração em geração entre iniciados e estudiosos até os tempos modernos. Então vamos a dissecação:

Talvez o elemento que mais chama a atenção nessa figura seja sua mescla entre ser humano e bode. Como todos os elementos aqui listados, esse possui mais de um significado, mas pode ser visto como a união entre o homem e a besta. Segundo essa visão, todo homem tem em si o potencial divino (Homem) alocado em um corpo animalesco (Bode). Equilibrar tais pólos é um dos segredos da iluminação.

As mãos que apontam para cima e para baixo, na direção do sol e da lua, são uma figura já clássica que indica que “Assim em cima como em baixo”, o famoso axioma de Hermes Trismegisto. Tal indicação mostra que o plano superior é como (não igual, mas equivalente) ao plano material, e que esse é como os planos inferiores. Além disso, o sol e a lua mostram que é necessário a união desses dois aspectos para que ocorra a iniciação.

Falando em pólos, vemos também que essa figura apresenta seios e uma figura representativa do pênis. Tal como visto acima, temos aqui um arcano sobre a união dos dois pólos: masculino e feminino, ativo e passivo, a energia solar e fálica e a energia lunar e ventral. O símbolo fálico é o caduceu, antigo símbolo de sabedoria e poder, sendo tido como a ferramenta de Hermes, o deus grego dos mensageiros e da magia.

As asas são o primeiro indício de outra união e equilíbrio entre extremos: se olharmos bem, vemos escamas na região da barriga, asas, um trono quadrado e uma chama sobre sua cabeça. As asas são uma clara alusão ao ar; as escamas apontam para a água; a chama sobre a cabeça é claramente o fogo; e o trono quadrado remete a terra. Como? Basta lembrar dos sólidos pitagóricos: segundo a escola de Pitágoras, cada sólido regular está associado a um elemento. Adivinha qual é a representação da terra? Sim, um cubo. Assim, Baphomet é aquele que reuni em si e domina os quatro elementos, ou os quatro aspectos do ser humano: corpo (terra), razão (ar), emoção (água) e espírito (fogo).

Por fim, mas não menos importante, seus braços trazem as inscrições “Solve” e “Coagula”. Essas palavras vem do latim e significam “destruir, desfazer, desconstruir” e “unir, juntar, refazer” respectivamente. Assim, Baphomet indica que o caminho para a iluminação passa primeiro pela destruição de quem se é seguido pela união a partir dos outros conceitos citados. Só assim, matando nossas fraquezas e desejos e nos reconstruindo a partir do conhecimento e da iluminação que nos tornaremos verdadeiramente completos e sábios.

Obviamente essa é uma explicação bem rasteira e básica sobre essa figura, mas já dá pra ter uma ideia de que não, Baphomet não é um desenho do demônio, nem uma entidade maligna que leva crianças pro inferno e se alimenta da alma delas. Baphomet é sobre o homem em comunhão consigo mesmo, é sobre superarmos nossos defeitos e nossas fraquezas e encontrarmos o divino que habita em todos nós.

Últimas palavras

Pelos últimos 2000 anos o monoteísmo vem dominando o mundo. E como tal, a moralidade monoteísta é a moralidade vigente. Como todo herói precisa de um grande vilão para existir, as forças do deus monoteísta precisam de uma contraparte para existir. Toda religião, em suma, possui essa polaridade. Mas nas religiões monoteístas isso se torna ainda mais evidente, seja através de embates diretos entre as forças do bem e do mal (como Jesus exorcizando os demônios, sendo tentado pelo diabo dentre outros), seja de forma indireta, tomando uma entidade como bode expiatório para perpetrar o eterno embate de forma mais velada e metafísica. Assim, os shaitans de cada religião são tão importantes quanto seus deuses, pois tratam também de nossa própria natureza humana: em busca da perfeição e da união com o divino, mas ainda falhos, pecadores e moralmente condenáveis.

E não há problema algum em assumirmos que somos falhos. Na verdade, o começo da sabedoria está aí. Se não buscarmos conhecer nossos defeitos de perto e não enfrentarmos eles de peito estufado, não poderemos jamais crescer enquanto indivíduos. E isso passa necessariamente por conhecer nossos demônios particulares um por um e lutar contra eles. E por demônios, eu me refiro não a pequenos seres vermelhos com tridentes que sussurram coisas erradas em nossos ouvidos. Buscar a elevação espiritual e humana é algo que vai além das religiões, visões políticas, crenças pessoais ou o que for. Aquele que não busca crescer enquanto pessoa está fadado a ser um prisioneiro de seus próprios erros e invariavelmente cometerá eles novamente.

Conhecimento liberta. Tal como Prometeu, somos condenados a sofrer sempre que buscamos mais e mais informação. Mas esse é o preço da sabedoria: ser um rebelde, um outsider, um combatente de velhos dogmas vazios e de líderes que só buscam os próprios interesses. Conhecer é se libertar, ainda que essa liberdade seja usada para lutar contra tudo que há de errado no mundo. Porque, como já dizia John Milton:

É melhor reinar no inferno do que servir no céu.

93,93/93!

Referências:

http://www.vatican.va/archive/bible/nova_vulgata/documents/nova-vulgata_index_lt.html — Bília traduzida para o Latim

Dogma e Ritual da Alta Magia — Éliphas Levi — 1854

A Revolução Luciferiana — André Camargo Monteiro — 2007

Mitos Paralelos — J. F. Bierlen — 2003

A cabala mística — Dion Fortune — 1993

Paraíso Perdido — John Milton — 1667

Torá

Corão

E se eu te contasse…

Para outro ser que está em algum pontinho desse, também não existimos e eles são os mais “evoluídos”.

Primeiro venho lhe dizer que leia o texto com a mente aberta. O texto não é recomendado pra mentes medianas ou religiosas demais. O tema não é religião, é lógica, com uma pitada de matemática e surrealidades cotidianas.

Vamos por partes: O sol em comparação com outras estrelas, é pequeno, muito pequeno. A via láctea, que é uma galáxia espiral do qual nosso Sistema solar faz parte, é pequena. Agora imagine milhares de milhares de galáxias com bilhões de planetas no sistema Solar, e tudo isso é pequeno comparado ao “universo” que conhecemos.

E se eu te contasse que tudo que conhecemos sobre o “Universo” fosse comparado à um grão de areia na imensidão de todos os desertos deste mundo juntos mil vezes, ouso até dizer milhares de vezes. Veja bem, isso é uma comparação mínima do que realmente é a dimensão do verdadeiro universo, que com absoluta certeza jamais iremos conhecer. Digo isto com convicção, porque a lua que tá pertinho daqui, não conhecemos, e pior… nem o nosso planeta conhecemos direito(o máximo que o homem já chegou foi a 15 mil metros dentro do planeta).

Agora que você já começou a imaginar e ter uma noção mínima do que nós somos, vamos aos fatos:

  • Se existem milhares de galáxias, com bilhões de planetas, porque existiria somente um universo? Isso seria limitar demais ao conhecimento humano.
  • Não criamos nada, nunca foi criado nada, tudo que acontece são descobertas, transformações. Seria hipocrisia dizer que o ser humano inventou algo novo, mesmo porque o planeta terra, por ser um planeta jovem tem mais de 4 bilhões de anos, cara… é totalmente surreal achar que somos uma civilização evoluída, como seres inteligentes e únicos no universo(melhor termo é galáxia.)
  • Aí vem outro fator bastante interessante, o termo Deus que usamos está limitado. Fomos sim criados e gerados por uma força extraordinariamente divina e imensuravelmente poderosa, isso é um fato que todas as religiões, crenças, discussões, filosofias e história mundanas explicam e reexplicam de tempos em tempos, é uma verdade irrefutável e absoluta. Mas veja bem, vamos comparar pequeno: A Galáxia por exemplo, com seus bilhões de planetas, sistemas e etc, equiparada a uma grande corporação, existe vários setores com divisões e subdivisões responsáveis por cada setor, e as vezes a corporação é tão grande, que alguns setores não tem idéia que existem outros departamentos.
    Lembrando, eu não estou em momento nenhum retirando a “Divindade” e muito menos a soberania de Deus, só estou comparando-o a um chefe de departamento de uma grande corporação. Agora imagine o universo dividido em bilhões de departamentos, com bilhões de chefes por ai, coordenando tudo, com seus subalternos, com aqueles estagiários bisonhos(isso acontece em todas as empresas), tentando orquestrar esse serviço que supostamente jamais entenderemos.
  • Digo isto de não entendermos, faço exemplo este planeta: existem seres inferiores a nós, apesar de parecermos ser a raça mais evoluída daqui(eu não acho, porque o ser humano é estúpido o suficiente para se auto destruir e depois correr atrás do prejuízo que ele mesmo causou).
  • Imagine você tentando ensinar uma formiga a conversar, ou ensinar um cachorro a tocar guitarra, eles não entendem nada disso, porque vivem em “outro universo”, a formiga nasceu pra fazer aquilo, viver a vida dela, e morrer pela vida dela, como se fosse programada. Porque o ser humano seria diferente?
  • E apesar desta suposta análise e descrição do mínimo que somos, eu fico imaginando o porque o ser humano briga e faz guerra e as demais atrocidades sendo que existe uma concepção, uma força e claro, vários seres estonteantes superiores e divinos lá fora e que poderiam compartilhar, nem que fosse o mínimo possível com a gente.
  • A questão agora é: Fazer o que fomos programados a fazer(que a maioria esqueceu ou não acessou) tudo que pudermos ao nosso alcance para chegar o mais próximo possível de Deus, para que ele possa nos mostrar ainda mais toda a luz, verdade e o caminho que ainda temos que percorrer para começarmos a ascender em outros setores.
  • Está próximo uma pequena mudança na concepção humana, mínima pra não dizer ínfima, mas que fará uma enorme diferença.
  • Veja bem, somos formigas dentro de uma árvore(planeta) em um floresta(galáxia), de um estado(universo), que faz parte de um país(verdadeiro universo), que está em um continente (nem sei o nome acima disso), que supostamente está em um planeta( conjuntos de algo que não me concederam o nome). E depois disso tudo, ainda existem pessoas que acham que o mundo gira em torno delas.

Segue um video do que seria o “suposto” universo que conhecemos, que não deixa de ser apenas mais um dos milhares de milhares de universos que existem. Clique aqui.

Bob Marley

persistenciaPare de reclamar da vida e faça algo para mudar, mova-se, saia do canto, ficar parado é para os fracos, os fortes vão à luta.

Soneto torto sobre flores e desespero

Jardim-com-Anturios

Nosso quarto sem você é um mar de solidão
Onde me afogo na cama vazia
As flores do jardim, uma a uma na escuridão
Também esperam o raiar do novo dia.

A aurora renova a esperança
Que o sol que nos move e ilumina
Porto feliz onde meu coração descansa
Presenteie-nos com sua silhueta divina.

O crepúsculo vespertino no horizonte que venero
Recolhe mais um dia de espera, de dor lenta que lacera
Ao meu suave modo me desespero.

As ondas da noite fria
Me carregam novamente para o mar de solidão
Onde me afogo na cama vazia na espera do novo dia.

(Poeta Torto)

A vida me ensinou

feliz

A vida me ensinou a entender tudo sem reclamar.
Mas fique mais, não vá embora agora que eu já quase era feliz.

(Cazuza)

“C’è una frase famosa: …”

cachoeira.jpg…que se dizia assim: “Antes só do que mal acompanhado”. Pois bem, defina para mim o que é ser “só”. Porque perante ao significado de tal palavra, há jargões e algumas sentenças descritivas explicitando o entender dos “ovos”.

Veja bem, só significa sozinho; que não está acompanhado; desprovido de companhia: antes só que mal acompanhada; caminhava só pelas ruas da cidade. Como também isolado; em constante solidão: sempre foi um poeta só. Como também deserto; sem habitantes; pouco ou não visitado ou frequentado: local só. Apenas; com exclusão dos demais: do trabalho só quer dinheiro.

Mas oras bolas, se caminhar pelas ruas da cidade, sendo um poeta só, parecendo um deserto, preocupado só com dinheiro(em questão do trabalho), pouco ou não visitado, então essa pessoa representa a sociedade de hoje em dia. Ou seja, estamos todos sós. Somos pessoas solitárias.

Muitos trabalham onde não querem, mas estão lá somente por dinheiro, outros não saem tanto, e nem recebem visita, outros andam sozinhos pela cidade, às vezes por falta de companhia outras por opção.

A sociedade deixou de ser uma oligarquia conjugal de divisão de valores e passou a ser uma anistia carregada de solidão.

Ao fritar dos ovos, percebemos que somos programados para fazer as funções básicas de sobrevivência do mundo, em um ciclo vicioso e totalmente exaustivo. Será quando o despertar do ser humano? Quando ele realmente perceber que nada disso lhe trará paz?
Que tudo isso culmina para um estado de felicidade longínquo e distante?

Abra os olhos! Abra-os AGORA! O momento é AGORA!

ACORDA!

Tic tac, tic tac, ACOOOOOORDA!

 

Foi

dd.jpg“Eu já vi o que aconteceu, mas não cabe a mim julgar a decisão dos outros. É extraordinário e ao mesmo tempo lamentável como será o amanhã. Mesmo direcionando e mostrando a realidade de cada escolha, o futuro já está definido.”

 

 

Gentileza: O segredo da Felicidade(I)

(Parte I)

Atitudes de carinho, respeito e atenção trazem mais benefícios do que você imagina. Doçura e gentileza, além de ajudar aos outros, nos deixa mais felizes e também nos ajuda a viver mais.

Muito do que torna a vida mais difícil – uma batidinha no carro, uma porta que alguém não segurou quando você passou – se deve à falta de consideração. Imagine só como seria o mundo se todos fossem um pouquinho mais gentis. Ao tentarmos entrar numa rua movimentada, por exemplo, alguém nos cede a passagem. No supermercado, você deixa alguém apressado entrar na sua frente na fila do caixa. No metrô lotado, você se levanta para dar lugar a quem parece cansado.

Uma nova teoria, chamada “sobrevivência do mais gentil”, diz que foi graças à gentileza que a espécie humana prosperou. O professor Sam Bowles, do Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos, analisou sociedades antigas e verificou que a gentileza era componente fundamental da sobrevivência das comunidades. “Grupos com muitos altruístas tendem a sobreviver”, diz ele. “Os altruístas cooperam e contribuem para o bem-estar dos outros integrantes da comunidade.”

Isto quer dizer que temos em nós a capacidade de ajudar os outros, principalmente os que nos são próximos, a fim de garantir nossa sobrevivência.

Sobre gentileza: a doçura traz felicidade

A pesquisa demonstra que a gentileza também pode nos deixar mais felizes. A professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, pediu aos participantes de um estudo que praticassem ações gentis durante dez semanas. Ela verificou que a felicidade aumentou no período do estudo, embora houvesse um senão: quem teve atitudes de gentileza variadas – segurar a porta aberta para um estranho passar, lavar a louça do colega de quarto – registrou nível bem mais alto de felicidade, mesmo um mês depois do fim do estudo, do que quem repetiu o mesmo ato várias vezes.

Não faz diferença em termos de felicidade se ajudamos um ente querido ou um estranho, mas o resultado pode ser diferente. “O ato pequeno e anônimo faz com que a gente se sinta uma pessoa muito boa”, diz a professora Lyubomirsky. “Mas um grande ato de gentileza feito a alguém que conhecemos pode ter consequências sociais: podemos fazer um novo amigo ou receber agradecimentos generosos.”

Assim, pagar um café para um estranho pode levantar o astral por al­gum tempo, mas auxiliar um vizinho idoso a fazer compras talvez ajude a melhorar de fato um relacionamento.

Para ter saúde: altruísmo

A gentileza nos faz bem de outras maneiras. O professor Stephen Post, autor de Why Good Things Happen to Good People (Por que coisas boas acontecem a pessoas boas), examinou os indícios de que ser gentil faz bem à saúde. Um estudo com 2.016 frequentadores de igrejas verificou que os que ajudavam os outros regularmente tinham mais saúde mental e menos depressão. Outros estudos constataram que as pessoas solidárias têm menos probabilidade de sofrer de doenças crônicas, e seu sistema imunológico tende a ser melhor. “Existe uma relação direta entre bem-estar, felicidade e saúde nas pessoas gentis”, diz Post.

A gentileza talvez ajude a regular as emoções, o que causa impacto positivo sobre a saúde. Se nosso instinto biológico automático do tipo “lutar ou correr” ficar ativo demais por causa do estresse, o sistema cardiovascular é afetado e a imunidade do corpo enfraquece. “É difícil ficar zangado, ressentido ou amedrontado quando se demonstra amor altruísta pelos outros”, afirma Post.

O mundo está preparado para pessoas gentis?

A gentileza pode ser uma virtude, mas isso não quer dizer que seja fácil. Diego Villaveces decidiu realizar atos aleatórios de gentileza para com estranhos, inspirado por alguém que “teve uma vida dificílima mas, apesar disso, conseguiu manter a generosidade para com os outros”.

Villaveces deu entradas de cinema, vales-refeição e livros a estranhos nas ruas, mas provocou algumas reações esquisitas.

“Algumas pessoas se mostraram muito perplexas”, diz ele. “Muita gente fica sem graça ao receber presentes de estranhos. Algumas chegaram a devolvê-lo, dizendo que não queriam minha generosidade. Tive de aprender a aceitar e respeitar isso.”

Villaveces, 38 anos, que trabalha com marketing e mora em Sydney, na Austrália, com a mulher e os filhos, a cada ato gentil aleatório dá também um cartão, que pede ao destinatário para fazer uma boa ação para outra pessoa.

“Decidi que queria fazer algo mais pela humanidade”, afirma. “A gentileza pode criar uma onda significativa de mudanças à nossa volta.”

Ele criou um site para acompanhar o progresso dos cartões, mas admite que, até agora, a resposta tem sido modesta.

“Pensei que seria mais fácil levar os outros a participar, mas isso também faz parte do desafio, e eu o aceito.”

É justo dizer que, como descobriu Villaveces, há um certo nível de cinismo diante da gentileza. O rótulo de “bom samaritano” nem sempre é um elogio. Todos gostamos da ideia de sermos gentis, mas ao mesmo tempo os gentis não acabam sendo sempre os últimos? Agir pela bondade do coração vai diretamente contra a teoria da evolução pela “sobrevivência do mais apto”, segundo a qual os seres humanos são levados a competir pela vida de modo bastante egoísta.

Em 1968, os pesquisadores Bibb Latané e John Darley descobriram um fenômeno conhecido como “efeito do espectador”: quando alguém precisa de ajuda num lugar público, a probabilidade de ser ajudado é menor quanto mais gente houver em volta. Os pesquisadores acreditam que o efeito surge porque todo mundo imita o comportamento da maioria e pressupõe que algum outro assumirá a responsabilidade. Nas cidades grandes, as pessoas também não se sentem seguras para interagir com estranhos.
(continua)

Gentileza: O segredo da Felicidade (II)

(Parte II)

Gentileza X Egoísmo

Mas nada do que foi dito aqui explica por que somos gentis quando queremos ser. Rebecca Egan, 34 anos, fez um dos maiores sacrifícios possíveis por alguém que amava: doou um rim ao pai, de 57 anos. “Foi uma das decisões mais fáceis que já tive de tomar”, revela. Foi um profundo ato de gentileza, mas que ela sente que só faria por um ente querido.

“Não sei por que, mas acho que não doaria um rim a qualquer pessoa; provavelmente só pensaria em fazer isso por um parente”, admite. “Ao mesmo tempo, doar o rim ao meu pai ajudou outras pessoas, porque papai saiu da lista de espera de doadores e alguém pôde ocupar o seu lugar.”

O pai de Rebecca talvez possa agradecer à genética pela gentileza da filha. Um estudo de 2005 da Universidade Hebraica, em Israel, descobriu um vínculo entre a bondade e o gene que libera a dopamina, neurotransmissor que proporciona bem-estar. A pesquisa de Alan Luks, publicada em 1991 no livro The Healing Power of Doing Good (O poder curativo de fazer o bem), verificou que as pessoas que tinham atitudes gentis descreviam ter uma sensação física. Muitos disseram sentir-se mais cheios de energia, mais calorosos, mais calmos e com mais amor-próprio, fenômeno que ele cha­ma de “a onda de ajudar”.

Alguns cientistas dizem que, como só somos altruístas pelo bem do grupo e para sentir a descarga de dopamina, isso significa que, na verdade, a gentileza é egoísta. “Talvez, em algum nível, a maioria dos casos de altruísmo seja em proveito próprio”, diz Bill Von Hipple, professor de Psicologia da Universidade de Queensland.

“Que importância tem se a gentileza é egoísta?”, pergunta a escritora Catherine Ryan Hyde. Seu livro Pay It Forward (Pague depois) conta a história de um garoto angustiado que decide começar a pagar todas as boas ações que recebe praticando três boas ações a outras pessoas. O livro se transformou em filme (no Brasil, o filme chama-se Corrente do Bem)e provocou um movimento de gente dedicada ao bem na vida real. A iniciativa ilustra como a gentileza pode ser verdadeiramente altruísta: estranhos ajudam estranhos sem expectativa de ganho pessoal.

Ryan Hyde diz que não importa o que motiva as pessoas a doar; o que importa é que decidiram doar. “Se tanto quem ajuda quanto quem é ajudado se sente bem, parece-me um exemplo em que todos saem ganhando. Não há jeito errado de fazer uma gentileza.”

A recompensa não pode ser dinheiro

A gentileza tem outra semelhança com a felicidade: não pode ser comprada.

Segundo o professor Sam Bowles, os economistas costumam cometer o erro de achar que todos são inerentemente egoístas e que só fazem algo bom em troca de recompensa financeira ou para evitar multas. Mas o relatório de Bowles publicado em 2008 na revista Science mostra o contrário.

A pesquisa acompanhou seis creches que começaram a cobrar multa dos pais que se atrasavam para buscar os filhos. Depois das multas, a incidência de atraso dos pais duplicou. Um estudo semelhante também verificou que a probabilidade de mulheres doarem sangue é menor se forem pagas. Bowles acredita que ficamos ressentidos com a ideia de que nossos princípios possam ser comprados: preferimos fazer boas ações de graça. “Ser gentil nos dá prazer”, diz.

Ser gentil ou individualista é opção de cada um.

Um dos sinônimos de bondade é humanidade. Em essência, a bondade e a gentileza são o reconhecimento do fato de que todos somos humanos, o reconhecimento de que estamos juntos.

“Muito do que faz a vida valer a pena depende de que pelo menos alguns de nós sejamos altruístas de vez em quan­do”, diz Bowles. “Não podemos enfrentar problemas como a mudança climática global, a disseminação de doenças e a violência mundial apelando apenas para o individualismo.”

A boa notícia é que é fácil aprender a ser gentil. “Basta praticar mais atos de gentileza do que estamos acostumados, e de forma regular; por exemplo: cinco atos de gentileza toda segunda-feira”, diz Sonja Lyubomirsky.

A gentileza, portanto, é apenas uma questão de opção: é uma atitude que adotamos e que pode fazer diferença, ainda que pequena, na vida dos outros.

Diego Villaveces acredita que a gentileza tem de começar por dentro.

“Às vezes afastamos os outros de nós para nos sentirmos mais seguros, mas isso também nos isola do restante do mundo”, diz ele. “Todas as grandes religiões têm o amor como princípio universal. A gentileza leva o amor a um nível mais terno e acessível, com o qual a maioria se sente à vontade. Fazer o bem aos outros é reconhecer que todos à nossa volta são iguais a nós.”

Como ser gentil e altruísta

(Dicas do Diego Villaveces)

• Compre um saquinho de amendoim ou alguns bombons no supermercado e os dê a um morador de rua.
• Visite um asilo de idosos e passe uma hora jogando cartas com alguém que não recebe muitas visitas.
• Carregue a mala pesada de alguém que parece estar se esforçando muito para arrastá-la.
• Compre raspadinhas e distribua-as de graça e inesperadamente.
• No metrô ou no ônibus, ofereça seu lugar a outra pessoa, mesmo que seja alguém mais jovem ou em melhores condições físicas que você.
• Prepare um jantar para um amigo que está passando por dificuldades.

Crianças e gentileza

As crianças pequenas demonstram tendência para a gentileza antes mesmo de desenvolver a linguagem, de acordo com um estudo de 2006 publicado na revista Science. As crianças de 2 anos pegam objetos que os adultos deixam cair no chão para devolvê-los, mas só se a criança achar que o objeto não foi jogado de propósito.

Você pode ensinar seus filhos a serem gentis começando com o básico da educação:
•Lembre-os de dizer “por favor” e “obrigado”, e dê o exemplo.
•Aumente o sentimento de empatia encorajando-os a entender como os outros se sentem.
•Recompense a gentileza. Quando vir seu filho ajudando alguém, elogie-o.

Claire Buckis

Osho

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Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso. Opte pelo que faz o seu coração vibrar. Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências.