O mudo da Rua Emille

fino

1886, dia turvo, trigésimo terceiro dia sem sol, apenas alguns relances de luz abaixo dos céus, desenhando inúmeras artes contemporâneas nas nuvens. Era uma semana comum, em uma cidadela comum, com personagens e caricaturas bem comuns. Havia um rapaz singelo, pequeno, com roupas rasgadas nas extremidades, como se fosse algo feito a mão, de forma precisa e espontânea, aquele rapaz estava lá, escorado na esquina da Rua Emille, encontro com o beco de WinterSale, ele estava lá, isso eu tinha certeza.

Era pouco menos do que anoitecer, e pouco mais do alvorecer, havia um festival naquele dia sem sol, com relances de luz, percebi que havia chovido, ou estava chovendo ainda, não me lembro ao certo, o álcool em meu sangue já duvidava de minhas conclusões, mas ele estava lá, isso eu tinha certeza.

Diziam que na cidade, existiam pessoas que não eram muito sociáveis, lembramos desses comentários ao deparar com o rapaz na esquina do beco, sempre calado, dominador de uma quietude suprema, e ao conversar com alguns colegas e amigos no recinto do festival, pudemos perceber que entre um gole e outro, estava eu ficando mais sóbrio, o que era totalmente improvável naquele momento e ele continuava lá, isso eu tinha certeza.

Com aquela suspeita de estar sendo sempre observado, e analisando todos meus pensamentos, e tentando chegar as conclusões que estavam pairando sobre minha mente, resolvi levantar e ir até o suposto rapaz, quando percebi que o mesmo também se movimentou, estávamos a poucos metros um do outro, isso também tinha certeza.

Ao decorrer do caminho, minha turva visão decorrida de minha alteração sanguínea proveniente de supostos copos de bebidas alcoólicas que ingeri ininterruptamente durante a noite, fui ao seu encontro e fui surpreendido com uma pancada na parte da frente da cabeça, caí ao chão.

Demorei alguns momentos para entender o que ocorrera, ao perceber o sangue descendo em minha sobrancelha, dei-me conta de que teria machucado. Mas a pancada abriu um pequeno espaço em minha janela de sobriedade e pude perceber que era um espelho, um grande espelho, e, não existia suposto rapaz, era eu o tempo todo encarando meu reflexo naquele espelho turvo, e isso eu não tinha certeza.

Tudo ficou mais claro quando me soltaram da cadeia logo cedo, por não terem motivo de deixarem preso um bêbado, maluco, que supostamente brigou com seu reflexo. Ao meu ver eu converso até demais, mas ao acordar na sobriedade, lembro que certas coisas não estão permitidas ao nosso consentimento, e escuto aquela voz perto do corredor: “Veja, é o mudinho da Rua Emille denovo, podem soltar ele.”

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