Ser feliz ou ter razão

casal-500x332

Oito da noite numa avenida movimentada.
O casal já esta atrasado para jantar na casa de alguns amigos.
O endereço é novo, assim como o caminho, que ela conferiu no mapa antes de sair.
Ele dirige o carro.
Ela o orienta e pede para que vire na próxima rua à esquerda.
Ele tem certeza de que é a direita.
Discutem.
Percebendo que além de atrasados, poderão ficar mal humorados, ela deixa que ele decida.
Ele vira a direita e percebe que estava errado. Ainda com dificuldade, ele admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno.
Ela sorri e diz que não há problema algum em chegar alguns minutos mais tarde.
Mas ele ainda quer saber: “Se você tinha tanta certeza de que eu estava tomando o caminho errado, deveria insistir um pouco mais”.
E ela diz: “Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos a beira de uma briga, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite”.
Quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independente de tê-la ou não.

 

Anúncios

Gentileza: O segredo da Felicidade(I)

(Parte I)

Atitudes de carinho, respeito e atenção trazem mais benefícios do que você imagina. Doçura e gentileza, além de ajudar aos outros, nos deixa mais felizes e também nos ajuda a viver mais.

Muito do que torna a vida mais difícil – uma batidinha no carro, uma porta que alguém não segurou quando você passou – se deve à falta de consideração. Imagine só como seria o mundo se todos fossem um pouquinho mais gentis. Ao tentarmos entrar numa rua movimentada, por exemplo, alguém nos cede a passagem. No supermercado, você deixa alguém apressado entrar na sua frente na fila do caixa. No metrô lotado, você se levanta para dar lugar a quem parece cansado.

Uma nova teoria, chamada “sobrevivência do mais gentil”, diz que foi graças à gentileza que a espécie humana prosperou. O professor Sam Bowles, do Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos, analisou sociedades antigas e verificou que a gentileza era componente fundamental da sobrevivência das comunidades. “Grupos com muitos altruístas tendem a sobreviver”, diz ele. “Os altruístas cooperam e contribuem para o bem-estar dos outros integrantes da comunidade.”

Isto quer dizer que temos em nós a capacidade de ajudar os outros, principalmente os que nos são próximos, a fim de garantir nossa sobrevivência.

Sobre gentileza: a doçura traz felicidade

A pesquisa demonstra que a gentileza também pode nos deixar mais felizes. A professora Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, pediu aos participantes de um estudo que praticassem ações gentis durante dez semanas. Ela verificou que a felicidade aumentou no período do estudo, embora houvesse um senão: quem teve atitudes de gentileza variadas – segurar a porta aberta para um estranho passar, lavar a louça do colega de quarto – registrou nível bem mais alto de felicidade, mesmo um mês depois do fim do estudo, do que quem repetiu o mesmo ato várias vezes.

Não faz diferença em termos de felicidade se ajudamos um ente querido ou um estranho, mas o resultado pode ser diferente. “O ato pequeno e anônimo faz com que a gente se sinta uma pessoa muito boa”, diz a professora Lyubomirsky. “Mas um grande ato de gentileza feito a alguém que conhecemos pode ter consequências sociais: podemos fazer um novo amigo ou receber agradecimentos generosos.”

Assim, pagar um café para um estranho pode levantar o astral por al­gum tempo, mas auxiliar um vizinho idoso a fazer compras talvez ajude a melhorar de fato um relacionamento.

Para ter saúde: altruísmo

A gentileza nos faz bem de outras maneiras. O professor Stephen Post, autor de Why Good Things Happen to Good People (Por que coisas boas acontecem a pessoas boas), examinou os indícios de que ser gentil faz bem à saúde. Um estudo com 2.016 frequentadores de igrejas verificou que os que ajudavam os outros regularmente tinham mais saúde mental e menos depressão. Outros estudos constataram que as pessoas solidárias têm menos probabilidade de sofrer de doenças crônicas, e seu sistema imunológico tende a ser melhor. “Existe uma relação direta entre bem-estar, felicidade e saúde nas pessoas gentis”, diz Post.

A gentileza talvez ajude a regular as emoções, o que causa impacto positivo sobre a saúde. Se nosso instinto biológico automático do tipo “lutar ou correr” ficar ativo demais por causa do estresse, o sistema cardiovascular é afetado e a imunidade do corpo enfraquece. “É difícil ficar zangado, ressentido ou amedrontado quando se demonstra amor altruísta pelos outros”, afirma Post.

O mundo está preparado para pessoas gentis?

A gentileza pode ser uma virtude, mas isso não quer dizer que seja fácil. Diego Villaveces decidiu realizar atos aleatórios de gentileza para com estranhos, inspirado por alguém que “teve uma vida dificílima mas, apesar disso, conseguiu manter a generosidade para com os outros”.

Villaveces deu entradas de cinema, vales-refeição e livros a estranhos nas ruas, mas provocou algumas reações esquisitas.

“Algumas pessoas se mostraram muito perplexas”, diz ele. “Muita gente fica sem graça ao receber presentes de estranhos. Algumas chegaram a devolvê-lo, dizendo que não queriam minha generosidade. Tive de aprender a aceitar e respeitar isso.”

Villaveces, 38 anos, que trabalha com marketing e mora em Sydney, na Austrália, com a mulher e os filhos, a cada ato gentil aleatório dá também um cartão, que pede ao destinatário para fazer uma boa ação para outra pessoa.

“Decidi que queria fazer algo mais pela humanidade”, afirma. “A gentileza pode criar uma onda significativa de mudanças à nossa volta.”

Ele criou um site para acompanhar o progresso dos cartões, mas admite que, até agora, a resposta tem sido modesta.

“Pensei que seria mais fácil levar os outros a participar, mas isso também faz parte do desafio, e eu o aceito.”

É justo dizer que, como descobriu Villaveces, há um certo nível de cinismo diante da gentileza. O rótulo de “bom samaritano” nem sempre é um elogio. Todos gostamos da ideia de sermos gentis, mas ao mesmo tempo os gentis não acabam sendo sempre os últimos? Agir pela bondade do coração vai diretamente contra a teoria da evolução pela “sobrevivência do mais apto”, segundo a qual os seres humanos são levados a competir pela vida de modo bastante egoísta.

Em 1968, os pesquisadores Bibb Latané e John Darley descobriram um fenômeno conhecido como “efeito do espectador”: quando alguém precisa de ajuda num lugar público, a probabilidade de ser ajudado é menor quanto mais gente houver em volta. Os pesquisadores acreditam que o efeito surge porque todo mundo imita o comportamento da maioria e pressupõe que algum outro assumirá a responsabilidade. Nas cidades grandes, as pessoas também não se sentem seguras para interagir com estranhos.
(continua)

Gentileza: O segredo da Felicidade (II)

(Parte II)

Gentileza X Egoísmo

Mas nada do que foi dito aqui explica por que somos gentis quando queremos ser. Rebecca Egan, 34 anos, fez um dos maiores sacrifícios possíveis por alguém que amava: doou um rim ao pai, de 57 anos. “Foi uma das decisões mais fáceis que já tive de tomar”, revela. Foi um profundo ato de gentileza, mas que ela sente que só faria por um ente querido.

“Não sei por que, mas acho que não doaria um rim a qualquer pessoa; provavelmente só pensaria em fazer isso por um parente”, admite. “Ao mesmo tempo, doar o rim ao meu pai ajudou outras pessoas, porque papai saiu da lista de espera de doadores e alguém pôde ocupar o seu lugar.”

O pai de Rebecca talvez possa agradecer à genética pela gentileza da filha. Um estudo de 2005 da Universidade Hebraica, em Israel, descobriu um vínculo entre a bondade e o gene que libera a dopamina, neurotransmissor que proporciona bem-estar. A pesquisa de Alan Luks, publicada em 1991 no livro The Healing Power of Doing Good (O poder curativo de fazer o bem), verificou que as pessoas que tinham atitudes gentis descreviam ter uma sensação física. Muitos disseram sentir-se mais cheios de energia, mais calorosos, mais calmos e com mais amor-próprio, fenômeno que ele cha­ma de “a onda de ajudar”.

Alguns cientistas dizem que, como só somos altruístas pelo bem do grupo e para sentir a descarga de dopamina, isso significa que, na verdade, a gentileza é egoísta. “Talvez, em algum nível, a maioria dos casos de altruísmo seja em proveito próprio”, diz Bill Von Hipple, professor de Psicologia da Universidade de Queensland.

“Que importância tem se a gentileza é egoísta?”, pergunta a escritora Catherine Ryan Hyde. Seu livro Pay It Forward (Pague depois) conta a história de um garoto angustiado que decide começar a pagar todas as boas ações que recebe praticando três boas ações a outras pessoas. O livro se transformou em filme (no Brasil, o filme chama-se Corrente do Bem)e provocou um movimento de gente dedicada ao bem na vida real. A iniciativa ilustra como a gentileza pode ser verdadeiramente altruísta: estranhos ajudam estranhos sem expectativa de ganho pessoal.

Ryan Hyde diz que não importa o que motiva as pessoas a doar; o que importa é que decidiram doar. “Se tanto quem ajuda quanto quem é ajudado se sente bem, parece-me um exemplo em que todos saem ganhando. Não há jeito errado de fazer uma gentileza.”

A recompensa não pode ser dinheiro

A gentileza tem outra semelhança com a felicidade: não pode ser comprada.

Segundo o professor Sam Bowles, os economistas costumam cometer o erro de achar que todos são inerentemente egoístas e que só fazem algo bom em troca de recompensa financeira ou para evitar multas. Mas o relatório de Bowles publicado em 2008 na revista Science mostra o contrário.

A pesquisa acompanhou seis creches que começaram a cobrar multa dos pais que se atrasavam para buscar os filhos. Depois das multas, a incidência de atraso dos pais duplicou. Um estudo semelhante também verificou que a probabilidade de mulheres doarem sangue é menor se forem pagas. Bowles acredita que ficamos ressentidos com a ideia de que nossos princípios possam ser comprados: preferimos fazer boas ações de graça. “Ser gentil nos dá prazer”, diz.

Ser gentil ou individualista é opção de cada um.

Um dos sinônimos de bondade é humanidade. Em essência, a bondade e a gentileza são o reconhecimento do fato de que todos somos humanos, o reconhecimento de que estamos juntos.

“Muito do que faz a vida valer a pena depende de que pelo menos alguns de nós sejamos altruístas de vez em quan­do”, diz Bowles. “Não podemos enfrentar problemas como a mudança climática global, a disseminação de doenças e a violência mundial apelando apenas para o individualismo.”

A boa notícia é que é fácil aprender a ser gentil. “Basta praticar mais atos de gentileza do que estamos acostumados, e de forma regular; por exemplo: cinco atos de gentileza toda segunda-feira”, diz Sonja Lyubomirsky.

A gentileza, portanto, é apenas uma questão de opção: é uma atitude que adotamos e que pode fazer diferença, ainda que pequena, na vida dos outros.

Diego Villaveces acredita que a gentileza tem de começar por dentro.

“Às vezes afastamos os outros de nós para nos sentirmos mais seguros, mas isso também nos isola do restante do mundo”, diz ele. “Todas as grandes religiões têm o amor como princípio universal. A gentileza leva o amor a um nível mais terno e acessível, com o qual a maioria se sente à vontade. Fazer o bem aos outros é reconhecer que todos à nossa volta são iguais a nós.”

Como ser gentil e altruísta

(Dicas do Diego Villaveces)

• Compre um saquinho de amendoim ou alguns bombons no supermercado e os dê a um morador de rua.
• Visite um asilo de idosos e passe uma hora jogando cartas com alguém que não recebe muitas visitas.
• Carregue a mala pesada de alguém que parece estar se esforçando muito para arrastá-la.
• Compre raspadinhas e distribua-as de graça e inesperadamente.
• No metrô ou no ônibus, ofereça seu lugar a outra pessoa, mesmo que seja alguém mais jovem ou em melhores condições físicas que você.
• Prepare um jantar para um amigo que está passando por dificuldades.

Crianças e gentileza

As crianças pequenas demonstram tendência para a gentileza antes mesmo de desenvolver a linguagem, de acordo com um estudo de 2006 publicado na revista Science. As crianças de 2 anos pegam objetos que os adultos deixam cair no chão para devolvê-los, mas só se a criança achar que o objeto não foi jogado de propósito.

Você pode ensinar seus filhos a serem gentis começando com o básico da educação:
•Lembre-os de dizer “por favor” e “obrigado”, e dê o exemplo.
•Aumente o sentimento de empatia encorajando-os a entender como os outros se sentem.
•Recompense a gentileza. Quando vir seu filho ajudando alguém, elogie-o.

Claire Buckis

A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem” (José Saramago).

ensaio sobre a cegueira

Em 1995, a literatura ganhava um dos maiores presentes para o intelecto humano: o livro “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago.

Longe, muito longe mesmo, de se tratar da cegueira física, Saramago usava suas personagens para relatar um assunto polêmico e, infelizmente, atual: a cegueira moral.Denominada de “cegueira branca’ pelo próprio autor, “Ensaio sobre a Cegueira” discorre sobre assuntos polêmicos e delicados, já que trata da “patologia”, como uma das piores doenças humanas.Saramago utiliza-se do termo “cegueira branca” para representar o egoísmo, a imparcialidade, o medo, a covardia, a raiva e outros sentimentos que cegam o ser humano e o levam à perdição. O livro é tão forte e tão direcionado aos aspectos morais da sociedade que as personagens não possuem nomes, características físicas nem comportamentais.

Logo com a primeira personagem do livro, que ficou cega após um acidente de automóvel, Saramago dá um tapa na cara dos leitores apáticos: “de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta”. No decorrer do livro, a situação piora. Com pitadas de sarcasmo e explícita indignação diante do comportamento passivo do ser humano, o autor lança fortes comentários que levam o leitor a refletir sobre as próprias ações: “O medo cega (…) são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”(…) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Saramago joga com a diferença entre as palavras “ver” e “olhar” e isso é proposital. O “olhar” é visto como o ato de enxergar o que está explícito (A luta pela comida, a violência imposta pelo mais forte, a ausência de pudor justificada pela nulidade do sentido visual, a tirania do governo) e o ato de “ver” e “reparar” refere-se a se posicionar diante dos fatos e fazer algo para mudar o quadro triste e degradante da sociedade. “Se não formos capazes de viver como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”

Saramago entende a cegueira como alienação do homem em relação a ele mesmo. No livro, quando a cegueira branca se torna uma epidemia, os problemas da sociedade ficam expostos e aumentam notavelmente, já que ninguém “enxerga” para mudar. Acontece assim: as regras da civilização são quebradas e o instinto de sobrevivência toma conta do homem, constatando o velho ditado, “quem pode mais chora menos”.

Agora, sejamos sinceros: em relação a cegueira moral da sociedade atual, o que mudou de 1995 para cá? Aceita-se, passivamente, a violência psicológica e abusiva, dentro de relacionamentos amorosos, profissionais e familiares, só para “não criarem atritos”. Aceita-se a violência social, desde que ela não nos atinja. Finge-se não ver os abusos que as crianças sofrem, para que “famílias” não sejam destruídas”. Será que, nós também, não fomos infectados pela cegueira moral e fingimos não perceber?

O livro leva o leitor a uma autocrítica e a uma reflexão sobre até que ponto estamos cegos ou somos maldosos. “-É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.” Até que ponto aguentaremos a violência, os roubos, a tirania como situações normais? Até quando seremos passivos diante da fome alheia? Até quando nossos braços ficarão cruzados sabendo que nossas crianças estão sendo abusadas e maltratadas? Até quando aguentaremos relacionamentos abusivos dentro da própria casa? “Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira”.

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem” (José Saramago).

Imagem de capa: cena do filme “Ensaio sobre a Cegueira”

Retirado do Obvious

O falso conforto da mediocridade

mediocridade

Absolutamente tudo na vida é uma questão de escolha. Até mesmo quando abrimos mão de escolher estamos escolhendo. Cada uma de nossas atitudes, ou a falta delas, revela o calibre de nossa natureza. Todas as nossas manifestações de apreço ou desdém expõem nossa maneira de funcionar em relação à nossa missão no mundo. E, o nosso caráter, mais cedo ou mais tarde se revelará, seja por nossa elevação, falta de escrúpulos ou mediocridade.

A despeito de nossa aparência exterior, que pode ou não concordar com a nossa essência, expelimos por cada um de nossos poros o veneno ou o antídoto que brota do núcleo de nossa personalidade original. Somos o que somos; não importa o que façamos para disfarçar. É no descuido que somos honestos. É na falta de ensaio que acabamos apresentando o nosso real e legítimo espetáculo. E, com o passar do tempo, conforme vamos nos apropriando das situações, pessoas e cenários, vamos nos esquecendo de vestir os figurinos, vamos ficando relaxados, acomodados na falsa impressão de que já temos um lugar garantido nesse mundo.

Vagando eternamente num mar de calmaria e águas mornas, podemos nos acostumar facilmente ao confortável abraço da mediocridade. Existe uma aparente segurança nesse lugar, a salvo das agruras que circulam os extremos. Pode nos parecer normal tornarmo-nos imperceptíveis, transparentes, invisíveis. É uma espécie de paz que se encontra nesse ponto da curva, sem o ardor da ambição e sem o peso de sustentar a atitude ética, sempre tão exigente em nossas mínimas decisões.

A mediocridade é um tipo de droga socialmente aceita. Entorpece, amolece, destempera. Sem que nos demos conta, surpreendemos nossa imagem numa superfície polida qualquer a nos sorrir de volta. Um sorriso estampado, esculpido, congelado. É até melhor que nem pensemos muito a respeito, pois se por uma ousadia qualquer decidimos querer lembrar o porquê sorrimos, corremos o risco de não achar motivo ou explicação. Corremos o risco de não saber sorrir diferente daquela representação de nós mesmos no espelho. O sorriso pronto e fácil é conquista de uma vida medíocre. Os medíocres não têm pelo que chorar; não há perdas. Nunca haverá o que perder para uma vida pautada no empate.

Nos inúmeros caminhos da vida cruzamos com faces impecavelmente lisas e ausentes de marcas. São as faces sem rosto de pessoas pasteurizadas. São as pessoas pasteurizadas que já vêm com rótulo de ingredientes e sugestões de uso. Pessoas “bem-sucedidas”, cujo sucesso se relaciona ao próximo carro que precisa ser mais caro do que o atual; cuja alegria se mede pelas coisas que hoje podem ser compradas com o resultado do seu sucesso. E corremos o enorme risco de acreditar que é isso o certo, que ser feliz é isso. Corremos o perigo de vender o brilho nos olhos pra comprar a reluzente ostentação de uma vida cheia de “conquistas”. Corremos o perigo de vender a emoção que tira o fôlego pra comprar uma janela de frente pro mar. Tomara que a gente nunca se esqueça de que ter a janela, não nos dá a posse do mar. E de que para ver o mar não precisamos possuir nenhuma janela.

A nossa trajetória nessa vida tão errante e incerta precisa estar fincada em valores que não sejam perecíveis, precisa ser construída sobre algo que nos mova e que faça de nós pessoas reais, necessárias. A nossa trajetória precisa ser fiel a alguma coisa que exista lá fora, mas que tenha nascido dentro de cada um de nós. O que nos orienta precisa ter a ambição de gerar felicidade além da nossa. O que nos move precisa nascer de uma missão assumida para o bem de todos os que nos cercam, sejam de perto ou de longe, nesse imenso mundo.

Sejamos, então, caprichosos em nossos mínimos gestos, atitudes e ideais. Façamos de nosso ofício a nossa fonte de alegria. Escolhamos para viver uma vida plena. Sejamos corajosos para escapar das armadilhas douradas que podem nos transformar em pessoas ansiosas pelo fim; o fim do dia, o fim do mês, o fim do ano. Acreditemos na nossa capacidade de construir coisas valiosas pelo bem que elas encerram e não pelos bens que elas possam nos proporcionar. Façamos cada uma de nossas escolhas de acordo com a crença de uma existência que vale cada instante de vida. Porque viver sem riscos, sem comprometimento e sem entrega pode até ser menos arriscado, mas é também a maneira mais eficiente de tornar pequena uma vida que já é curta demais para o tanto que esse mundo precisa de nós.

Retirado do Obvious

A incrível geração Mimimi

Por (Jenifer Castilho)

Numa galáxia muito longe da nossa, existe um planeta habitado por indivíduos muito inteligentes e cultos. Há um grupo muito influente que conquistou quase todo o planeta. Eles são denominados: “a incrível geração mimimi”. Essa geração acorda ao meio dia e não arruma sua cama, almoça e não lava seu prato, e quando acaba sua rotina “matinal”, finalmente se conecta ao wi-fi pago por seus pais opressores e enche as redes sociais diariamente de reclamações sobre o machismo, racismo, e a sociedade patriarcal. Ela só lê (quando se dá ao trabalho) as xerox’s da universidade indicadas por seus professores.
Se orgulham de sua intelectualidade e, quando alguém escreve nas redes sociais algo que eles não concordam, não citam livros, nem fontes confiáveis. Não precisam dessa barbaridade! Eles simplesmente respondem com toda sua inteligência e perspicácia a mesma frase de sempre: “apaga que dá tempo”.

Que sagacidade, não é mesmo?

Não precisam ler nenhum autor conservador ou liberal para criticá-los, pois lá no fundo todo mundo sabe que esses autores não sabem do que falam. Na verdade, essa geração não precisa nem mesmo ler autores que eles próprios defendem. Se a mídia diz que ele é bom, se os professores dizem que ele é bom, por que questionar?
Em falar em questionar, essa geração é a mais inteligente. Todos pensam igual, todos dizem os mesmos clichês e as mesmas frases de efeito, mas se consideram autônomos e afirmam constantemente que pensam por si mesmos e são independentes.

Você precisa esquecer sua identidade para fazer parte dessa geração, precisa se rotular e ter uma opinião formada sobre tudo. “Aquilo que o Tico Santa Cruz publicou”, “aquilo que Jean Wyllys cuspiu… quer dizer, falou.” Deve estar atento aos temas políticos do momento senão ficará de fora da roda dos doutores da política das redes sociais. E aceite! A Polícia Federal não sabe de nada! Aquele macho opressor chamado Sérgio Moro, que estudou a vida toda, se tornou juiz federal em 1996, que chefiou a 3ª Vara Federal de Joinville em Santa Catarina, que tem vários livros publicados não sabe de nada! Quem sabe de tudo é seu professor de história de 40 anos que ainda mora com a mãe. O resto é golpe! Aceita que dói menos.

A incrível geração mimimi sempre trabalha com a lógica.

O deputado gay se fantasia e homenageia um personagem terrorista da história que mandava gays para campos de concentração e os matavam.

A mulher feminista diz que o lugar de toda mulher é onde ela quiser, mas se ela quiser ficar fora do movimento feminista merece ser estuprada. estupro.png

Essa geração é contra a pena de morte, mas a favor do assassinato dos bebês desde que eles ainda estejam no ventre.

Essa foto representa mais um caso de um espermatozoide abusado e opressor que entrou no ventre dela sem seu consentimento:aborto.jpg

E o que falar daquelas guerreiras que lutam contra cultura do estupro e a sociedade patriarcal? Não poupam esforços para acabar com as injustiças impostas a elas. Elas não se depilam e postam em suas timelines sobre o estupro que sofrem diariamente ao sair na rua e ter a infelicidade de um macho lhes olhar.

 

Retirado do Gazeta do Povo

 

Família

divertida-mente-2

O amor, o afeto e a paz eram 3 irmãs
Que viviam felizes e em sintonia harmoniosa
Com uma ligação tão forte quando um imã
E reinavam de uma forma gostosa

O afeto era o mais comunicativo
Solto, se apegava mais as pessoas
Era muito extrovertido e ativo
Além de simpático, tinha ideias boas

A paz era a mais reservada, rígida e centrada
Evitava qualquer desavença, às vezes até concordava
Com algo que não gostava, para já ter uma resposta dada
Sem criar uma discussão, onde a felicidade reinava

O amor era o mais cuidadoso, um típico sincero
Vivia pelos outros, era liberal e um verdadeiro lutador
Dizia: “Um dia eu conquisto todos do mundo, assim espero”
E às vezes, por ser ele mesmo, não deixava ser tomado pela dor

E o mundo em que viviam existia outros parentes
Dos primos Ódio e Raiva até os tios Calma e Ansiedade
Sem falar de outros inúmeros que se alternam entre os entes
Era uma grande família, uma fraternidade.