Somos Traídos pela Nossa Própria Percepção e Experiência

sebastiao-salgado-genesis-black-white-02Vemos muito bem que as coisas não se alojam em nós com a sua forma e essência, e não penetram em nós pela sua própria força e autoridade; porque, se assim fosse, recebe-las-íamos do mesmo modo: o vinho seria o mesmo na boca do doente e na boca do homem são. Quem tem os dedos gretados, ou que os tem entorpecidos, encontraria na lança ou na espada que maneja uma rigidez semelhante à que o outro encontra. Os objetos externos rendem-se então à nossa mercê; alojam-se em nós como nos apraz. Ora, se da nossa parte recebêssemos alguma coisa sem alteração, se as faculdades humanas fossem bastante capazes e firmes para apreender a verdade pelos nossos próprios meios, esses meios sendo comuns a todos os homens, essa verdade se transmitiria de mão em mão de um para outro. E pelo menos se encontraria uma coisa no mundo, entre tantas que há, que seria acreditada pelos homens por um consenso universal. Mas o facto de não se ver proposição alguma que não seja debatida e controversa entre nós, ou que não o possa ser, mostra bem que o nosso julgamento natural não apreende muito claramente aquilo que apreende; pois o meu julgamento não pode fazer com que isso seja aceite pelo julgamento do meu companheiro, o que é um sinal de que o apreendi por algum outro meio que não um poder natural que exista em mim e em todos os homens.

Além dessa diversidade e divisão infinitas, pela con­fusão que o nosso julgamento causa a nós mesmos e pela incerteza que todos sentem em si, é fácil ver que a posi­ção deste é bem pouco sólida. Quão diversamente não julgamos nós as coisas? Quantas vezes mudamos as nossas opiniões? O que hoje afirmo e acredito, afirmo-o e acredi­to-o com toda a minha convicção; todos os meus instrumen­tos e todos os meus recursos empunham essa opinião e ­respondem-me por ela em tudo que podem. Eu não poderia abraçar verdade alguma nem preservá-la com mais força do que faço com esta. Estou nela por inteiro, estou nela verdadeiramente; porém acaso não me ocorreu, não uma vez mas cem, mas mil, e todos os dias, de ter com es­ses mesmos instrumentos, nessa mesma condição, abraçado alguma outra coisa que depois julguei falsa? Precisa­mos pelo menos de nos tornar sábios à nossa própria custa.

Se amiúde me vi traído por essa aparência, se a minha pe­dra de toque costuma mostrar-se falsa e a minha balança parcial e injusta, que segurança posso ter nesta vez mais que nas outras? Não será tolice deixar-me enganar tantas vezes ­por um guia? No entanto, que a fortuna quinhentas vezes ­nos mude de lugar, que não faça mais que, como a um vaso, esvaziar e encher incessantemente a nossa crença com outras e outras opiniões, sempre a atual e mais recente é a certa e infalível. Por esta é preciso abandonar os bens, a honra, a vida e a salvação, e tudo, A última desgosta-nos das primeiras e desacredita-as no nosso espírito (Lucrécio)

Michel de Montaigne, in ‘Ensaios’

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