Ficção do Eu

Para Freud, o eu é uma ficção necessária à ação. Em todas as suas versões, a psicanálise se baseia no desenvolvimento complexo dessa idéia. Na descrição freudiana, o ser humano é um animal que nasce prematuramente, em condição de dependência absoluta, desde cedo busca o amparo e a proteção necessários à sobrevivência, e é instado a responder a solicitações e injunções dos meios físico, biológico e cultural. O complexo processo de constituição de um eu capaz de se reconhecer como sujeito frente aos outros começa com os primeiros movimentos e ações do bebê, passa pelo mergulho da criança no universo das significações propiciadas pelo equipamento lingüístico e pela conquista de um lugar na cadeia de gerações e na divisão dos sexos e segue por toda a vida, ao longo da interminável trajetória de construção de narrativas e identificações com as quais o indivíduo dota de sentido sua existência pessoal.

INST.PESQ.DE RELÍQUIAS CULTURAIS DA CIDADE DE YAN`NA.PROVÍNCIA DE SHANXI


Alguns estudiosos dizem que somos montagens, arranjos sintomáticos mais ou menos bem-sucedidos

A experiência de si, aos olhos da teoria freudiana, é o resultado complexo, mutante e inacabado de um equilíbrio instável entre um enorme conjunto de fatores, que vão das exigências conflitantes de instâncias internas (id, ego, superego), às difíceis mediações entre desejos inconscientes e normas sociais internalizadas, mecanismos de defesa contra a angústia, necessidades psicossomáticas e demandas produzidas culturalmente, e assim por diante. O eu da psicanálise é, portanto, fragmentado, governado por forças que não domina, uma montagem mais ou menos bem-sucedida que leva o sujeito a agir no mundo, buscar satisfações e lidar de alguma maneira com o desamparo, a angústia e o desejo. Ele é, para usar uma expressão do filósofo Daniel Dennett, um centro de gravidade: não tem substância, tudo nele deriva dos efeitos produzidos pelas interações com os outros aspectos significativos de sua história, com o ambiente natural e simbólico que o circunda, com as expectativas e desejos projetados sobre ele (mesmo antes que tivesse nascido, no desejo inconsciente dos pais). O eu é uma imagem (daquilo que vejo refletido no olhar do outro, daquilo que suponho poder causar no outro) e uma trajetória (de identificações, de configurações sintomáticas, de posicionamentos subjetivos frente aos outros) que resultam dessas interações e permitem ao sujeito projetar-se em um futuro.

Freud definiu a psicanálise como uma teoria do funcionamento subjetivo, um método de investigação da vida mental e uma forma de tratamento do sofrimento psíquico. Apesar da origem médica, ele sempre recusou a subordinação de sua criação às expectativas curativas da psicologia e da medicina. Em sua abordagem da experiência subjetiva não há lugar para uma normalidade cuja restituição seria o objetivo da prática clínica. Como somos em verdade montagens, arranjos sintomáticos mais ou menos bem-sucedidos, o que o dispositivo analítico pretende não é a simples redução ou eliminação de sintomas ou do sofrimento (isto se consegue de muitas outras maneiras, de sugestão a medicamentos), mas uma ampliação da normatividade do sujeito, ou seja, de sua capacidade de se reposicionar subjetivamente, de ser mais espontâneo e criativo na vida de que desfruta, não se fixando excessivamente a imagens do eu, respostas sintomáticas ou estereotipias da ação que limitam e estreitam seu horizonte existencial.

Este reposicionamento é alcançado na medida em que o dispositivo analítico oferece ao sujeito as condições para que ele se reconheça como autor de sua própria existência. Ao implicar-se no próprio sintoma que aparecia antes como um alien estranho e desconhecido a assombrá-lo, o sujeito amplia a percepção dos vários elementos e fatores que incidiram sobre seu percurso pessoal, sobre o papel de suas escolhas (conscientes ou inconscientes) na construção do eu que ele é, da vida que experimenta e do mundo que habita. Assim ele se habilita ao desprendimento de si, a ocupar sua existência com gestos mais espontâneos e menos autocentrados, mais criativos e menos auto-indulgentes. Deste ângulo, portanto, percebe-se que a psicanálise e o budismo se afirmam, por caminhos distintos, como saberes que visam a transformação da existência e como práticas que buscam a liberdade.

(Para o filósofo Slavoj Zizek o budismo é a prática ideal para os tempos neoliberais:cada vez mais se aproxima das neurociências e já não é visto como fenomêno exótico)

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