O Teorema Katherine

elaNa manhã seguinte à formatura do ensino médio e depois de ser dispensado por sua décima nona Katherine, o célebre menino prodígio Colin Singleton tomou um banho de banheira. Colin sempre preferiu banhos de imersão; uma das regras fundamentais em sua vida era nunca fazer em pé qualquer coisa que pudesse realizar, com a mesma facilidade, deitado. Ele colocou os pés na banheira assim que a água esquentou, sentou-se e ficou observando, com o rosto estranhamente sem expressão, enquanto a água subia. Foi encobrindo suas pernas, que estavam dobradas e cruzadas. Colin percebeu, embora sem muito ânimo, que estava muito comprido e grande demais para aquele espaço — parecia uma criatura praticamente adulta brincando de ser criança.

Quando a água começou a banhar sua quase ausente mas nada definida barriga, ele pensou em Arquimedes. Quando Colin tinha uns 4 anos, leu um livro sobre Arquimedes, o filósofo grego que descobriu, ao se sentar numa banheira, que o volume de qualquer corpo poderia ser calculado com base no deslocamento da água. Ao chegar a essa conclusão, dizem, gritou “Heúreka!”1 e saiu correndo pelado pela rua. O livro dizia que muitas descobertas importantes continham um “momento eureca”. E mesmo então, com tão pouca idade, Colin queria muito ser o autor de descobertas importantes, o que o fez perguntar à mãe assim que ela chegou em casa aquela noite:

— Mamãe, algum dia eu vou ter um “momento eureca”?

— Ah, meu querido — ela disse, pegando sua mão. — Qual é o problema?

— Eu quero ter um momento eureca — ele respondeu, da mesma forma que outra criança teria expressado a vontade de ter uma das Tartarugas Ninja.

Ela encostou as costas da mão na bochecha dele e sorriu, os rostos tão próximos que dava para ele sentir o cheiro de café e maquiagem.

— Mas é claro, Colin, filhinho. É claro que você vai ter. Só que as mães mentem. Está na descrição do cargo delas.

Colin respirou fundo e deslizou o corpo, mergulhando a cabeça. Estou chorando, pensou, abrindo as pálpebras para enxergar embaixo da água cheia de sabão que fazia seus olhos arderem. Quero chorar, então devo estar chorando, mas é impossível dizer ao certo dentro d’água. E não estava. Estranhamente, estava deprimido demais para derramar lágrimas. Magoado demais. A sensação era de que Katherine havia roubado dele a parte que chorava.

Colin destampou o ralo, ficou de pé, enxugou-se e vestiu-se. Quando saiu do banheiro, viu os pais sentados, juntos, em sua cama. Nunca era um bom sinal quando ambos estavam em seu quarto ao mesmo tempo. Historicamente, aquilo significava:

1 “Eureca!” Do grego: “Achei!”

1. Suaavó/seuavô/suatia-Suzie-que-você-não-conheceu-mas-acredite-era-legal-e-é-uma-pena morreu.

2. Você está deixando que uma garota chamada Katherine o distraia dos estudos.

3. Os nenéns são gerados por meio de um ato que em algum momento você achará interessante, mas que por enquanto só o deixará horrorizado, e, além disso, às vezes as pessoas fazem coisas que incluem algumas etapas do ato de gerar nenéns que, na verdade, não incluem a fabricação de nenéns, como beijar o outro em lugares que não ficam no rosto.

Nunca significou:

4. Uma garota chamada Katherine ligou enquanto você estava no banho. Ela sente muito. Ela ainda o ama e cometeu um erro imperdoável, e está esperando você lá embaixo.

Mas, mesmo assim, Colin não pôde evitar nutrir a esperança de que seus pais estivessem no quarto para dar uma notícia do tipo 4. Em geral, o garoto era pessimista, mas parecia fazer uma exceção para as Katherines: sempre achava que voltariam com ele. Aquela sensação de amar e ser amado invadiu seu ser, e ele pôde sentir o gosto da adrenalina no fundo da garganta — e quem sabe não acabou, e quem sabe ele iria poder sentir o toque da mão dela de novo, e ouvir aquela voz alta e aguda se transformando num sussurro na hora de dizer eu-te-amo do jeito rapidinho e baixinho como sempre fizera. Ela falava eu te amo como se fosse um segredo; e um dos grandes.

O pai ficou de pé e deu um passo em sua direção.

— A Katherine ligou para o meu celular — ele disse. — Está preocupada com você.

Colin sentiu a mão do pai em seu ombro e, em seguida, os dois se aproximaram e se abraçaram.

— Estamos muito preocupados — a mãe falou. Ela era baixa e tinha cabelos castanhos e encaracolados com uma única mecha branca na frente. — E surpresos — acrescentou. — O que aconteceu?

— Não sei — Colin disse, baixinho, encostado no ombro do pai. — Ela simplesmente… não me aguentava mais. Cansou de mim. Foi o que ela disse.

Aí a mãe se levantou e foi um tal de se abraçarem, braços para todo lado, até que ela começou a chorar. Colin se desvencilhou dos abraços e sentou-se na cama. Sentiu uma necessidade absurda de expulsá-los do quarto imediatamente, como se fosse explodir se não saíssem. Literalmente. As vísceras espalhadas pelas paredes; o cérebro prodigioso jogado na colcha da cama.

— Bom, em algum momento precisaremos sentar e avaliar suas opções — o pai disse. Ele era fã de avaliações. — Não estou tentando ver o lado bom, nem nada, mas parece que agora você terá tempo livre no verão. Um curso de férias na Universidade Northwestern, talvez?

— Quero muito ficar sozinho, só hoje — Colin respondeu, tentando transmitir uma aura de tranquilidade para que os dois fossem embora e ele não explodisse. — Então, podemos fazer essa avaliação amanhã?

— É claro, querido — a mãe respondeu. — Estaremos aqui o dia todo. Desça a hora que quiser, e nós o amamos, e você é tão, tão especial, Colin, e não pode de jeito nenhum deixar que essa garota o faça sentir qualquer coisa diferente disso, porque você é um garoto magnífico e genial…

E, naquele exato momento, o garoto mais especial, magnífico e genial do mundo correu para o banheiro e botou os bofes para fora. Uma explosão, por assim dizer.

— Ah, Colin! — a mãe gritou.

— Só preciso ficar sozinho — ele insistiu,do banheiro. — Por favor.

Quando saiu, os pais tinham ido embora.

Pelas quatorze horas que se seguiram, sem fazer uma pausa sequer para comer, beber ou vomitar de novo, Colin leu e releu o anuário da escola, que recebera apenas quatro dias antes. Tirando o blá-blá-blá costumeiro dos anuários, o seu continha setenta e duas assinaturas. Doze eram só as assinaturas mesmo, cinquenta e seis mencionavam sua inteligência, vinte e cinco diziam que gostariam de tê-lo conhecido melhor, onze falavam que foi legal tê-lo como colega de turma na aula de inglês, sete incluíam as palavras “esfíncter da pupila”2 e impressionantes dezessete terminavam com “Fique tranquilo!”. Colin Singleton não poderia ficar tranquilo mais que uma baleia-azul poderia ficar magrinha ou Bangladesh poderia ficar rico. Provavelmente, aquelas dezessete pessoas estavam brincando. Pensou naquilo — e refletiu sobre como vinte e cinco de seus colegas de turma, alguns dos quais haviam frequentado a escola ao seu lado doze anos seguidos, poderiam ter desejado “conhecê-lo melhor”. Como se não tivessem tido oportunidade.

Mas, acima de tudo, naquelas quatorze horas, ele leu e releu a dedicatória de Katherine XIX: Col, A todos os lugares aonde fomos. E a todos aonde iremos. E a mim, aqui sussurrando de novo, de novo, de novo e de novo: eu te amo.

Por fim, Colin achou que a cama estava confortável demais para seu estado de espírito e, por isso, deitou de barriga para cima com as pernas esparramadas pelo carpete. Ele começou a criar anagramas de “para sempre sua” até que achou um que lhe agradou: se um pesar para. Então ficou deitado ali imaginan- do se o seu pesar pararia, e repetiu mentalmente a já decorada mensagem, e quis cair no choro, mas em vez disso sentiu ape- nas uma dor no plexo solar. Chorar é algo a mais: é você mais as lágrimas. Mas o sentimento que Colin carregava era um maca- bro choro ao contrário. Era você menos alguma coisa. Ele ficou pensando naquela expressão — para sempre — e sentiu uma queimação logo abaixo da caixa torácica.

Doía como a pior surra que já tomara. E ele já havia toma- do muitas.

John Green (O Teorema Katherine – Capítulo 1)

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