Leica

leicaSe você é pequeno burguês assumido como eu, vai tomar um café e volta quando eu escrever alguma outra coisa. Se você, no entanto, é nobre, vem de família com muitos nomes, tem posses, toma café com o dedinho para cima, ou é só um pobrão metido a besta tentando impressionar os desavisados, esse artigo é para você.
Leica é o nome de uma fabricante alemâ de câmeras fotográficas. Leica é, também, muito mais do que isso. Se você tem a Canon 1Ds – a melhor qualidade DSLR da era digital- ou a Nikon F6- a melhor câmera 35mm já fabricada – você só tem uma câmera. Se você tem uma Leica você tem um simbolo de distinção, uma encarnação do melhor gosto, da inclinação mais refinada da nossa cultura.
 A Leica foi a câmera de alguns dos maiores artistas da fotografia. É, também, a câmera por excelência do nobre.
Os assessórios do nobre, revelam aos iniciados e de forma discreta, uma percepção sofisticada, um gosto trabalhado e uma conta bancária recheada. A LEICA, assim como um relógio A. Lange & Söhne, uma gravata Marinella ou um terno Brioni cumprem esse papel. O nobre é muito diferente do homem comum. (Não é melhor, só diferente). Desde os tempos onde a nobreza das cidades-estado gregas chegaram a conclusão que só o homem “livre das necessidades imediatas da vida e dos laços que esta estabelece” (como diria Anna Harendt) estava apto a cultivar as faculdades mais elevadas do espírito (entre elas a arte e a política) e existir plenamente – a nobreza desenvolveu uma aptidão notável para a dominação, a perpetuação e o cultivo da civilidade como parte da super-estrutura que vincula tudo isso. A civilidade da nobreza – publicizada nos atos exteriores cotidianos – funcionou por séculos como código que delimitava as relações de poder, as precedências, as autoridades, as observâncias e os limites da própria classe. (Quem não dominasse os códigos, embora abonados, eram logo deixados de fora, os famosos: sem berço). Não apenas o fazer, mas o como fazer, a civilidade nos processos diários do vestir, do andar, do comer, serviram de ligame que deu constituição sólida a essa classe, a distinguia das outras e ordenava as lutas no interior do grupo. Dai nasceram a cortesia e a diplomacia. Pequenos códigos de grande significado, uma forma delicada de mandar o outro pro infermo e continuar ouvindo Mozart.
O mundo mudou, a nobreza hoje é matéria de tablóide. Hoje as rainhas, príncipes e princesas são fotografados em situações escandalosas por assalariados com câmeras Canon e Nikon. O mundo é dominado por dois jovens que criaram o google e as casas reais servem de enredo para livros de teorias conspiratórias. (Das quais, em algumas eu acredito). Entretanto, umas coisa não mudou: as exterioridades.
 As exterioridades implicam uma relação diferente do nobre com a câmera fotográfica. A câmera do nobre precisa ter, em tese:
  • Uma experiência reflexiva, um processo de criação artística indiscutivelmente profundo e único que leve o fotógrafo o mais perto possível da experiência do artista a quem em parte admira, em parte desdenha. Nada mais parecido com isso do que uma foto criada com tempo e inteligência, completamente no modo manual e de preferência em preto e branco. Lembre-se, esse homem governa o mundo, comanda Estados, quando vão fotografar não querem saber de auto-focus para clicar jogador de futebol. Querem uma experiência intelectual, artística, humana.
  • Discreta e elegante.
  • Tradição e atemporaniedade. Quem gosta de novidade é novo-rico e portanto digital é coisa de pobre (na minha opinião a LEICA terminou de se F… depois que inventou virar digital da forma que virou);
  • Distinção. Deve conferir uma aura de especialidade. Cada Leica é finalizada a mão por um mestro-construtor. Não é feita em linha de produção na China. A Leica oferece uma das mais legais personalizações de câmeras do mercado, você pode até gravar a sua assinatura);
  • Excelência indicutível. Você pode dizer tudo de uma LEICA, menos que ela é ruim, principalmente as lentes. Algumas dão um banho nas nossas burguezinhas.

A Leica de fato oferece tudo isso.

Ademais a LEICA conseguiu desenvolver em suas lentes um “look” diferenciado que faz parte da tradição da marca – assim dizem os aficcionados. Se todo mundo consegue ver esse look, eu não sei. Mas a explicação lógica para esse fenômeno do “look” de uma lente é simples. Uma lente, a grosso modo, é um problema ótico cujo objetivo é a resolução das diversas categorias de distorção que existem tendo em vista produzir a melhor qualidadede imagem. Os artesões da LEICA conseguiram alcançar um certo arranjo na forma como as superfícies de vidro dentro de um sistema de lentes contribui para a resolver as diversas categorias de distorções óticas. Uma outra fabricante, chega a um outro arranjo, visto não haver uma única solução para o balanceamento das distorções óticas de um sistema. Ainda que as duas soluções sejam excelentes, produzidas por fábricas top-de-linha, os dois arranjos distintos que resultarão em imagens com aspecto, cor, constrastes, nitidez sutilmente diferentes. Essas diferenças, todas dentro da margem que consideramos correta, formam o “look” de determinada lente, linha, modelo ou mesmo fabricante. A Leica, com certeza tem levado isso muito à sério ao longo de toda a sua história.

Por isso, da próxima vez que você dizer que LEICA é ruim seu mal-criado, é melhor dizer: ela não é para mim. Ela tem um corpo que é tecnicamente menos sofisticado que a sua Nikon F6?ok. Eu daria 5200 dólares numa Leica? Nem a pau. Se fizer por 2000 eu compro. Ela vai sumir por que não conseguiu fazer o pulo tecnológico, ou abdicar de fazê-lo com mais charme e não essa atitude de enterro que caracteriza a empresa há anos? Talvez, sim. Mas eu espero que a herança de cultivar o “look” das soluções óticas não morra junto com ela.

Se conseguir absorver público das classes de grandes executivos e industriais, dos esportistas, os quais falam uma linguagem um tanto diferente da nobraiada, algo mais parecido com alta-performance, Hugo Boss, Aston Martin e mulher pelada no comercial, talvez a marca ressurja.

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