Resposta a quem veste a carapuça

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“Minha querida Leitor(a),

A sua primeira pergunta – “p q vc nao fala pra mim aqui [no chat] o q quer dizer?” – me faz lembrar a tese do educador Cláudio de Moura e Castro, segundo a qual, no Brasil, ninguém lê o que um autor escreveu, mas o que se imagina que ele quis escrever. Pois é. Mas o que eu quero dizer, Leitor(a), está dito nos meus textos. Para além disso, é tudo imaginação de quem leu.

Sou um escritor e, como tal, escrevo para o público leitor. Não escrevo (meus artigos ou comentários) pra você, nem sobre você especificamente, nem dou “indiretas” pra você, nem pra ninguém. Você não é o centro do meu mundo, nem a causa única de nada do que escrevo.

Se você vestiu em algum momento a carapuça – e, evidentemente, não é a primeira vez que alguém a veste a partir de um texto meu -, esse é um problema inteiramente seu.

Eu escrevo, entre outras coisas, sobre pensamentos e condutas que se estabelecem como padrão, e eles, de fato, só me interessam por isso: porque se repetem, manifestando-se em diversas pessoas. Não tenho razões para dar conselhos a quem não me pediu, muito menos tempo para fazer correções individuais, de modo que, quando detecto uma tendência nociva se avolumando, cumpro com prazer o meu papel de esculhambar todos os seus adesistas de uma só vez, na esperança, sim, de que se reconheçam intimamente no que escrevi e, trazendo à consciência os vícios de que participam, tratem finalmente de melhorar. Isto não é “indireta”, Leitor(a). Isto é literatura. Isto é filosofia.

Se você é uma das milhares de pessoas que: 1) opinam sem saber; 2) alegam a variedade de pontos de vista como forma de legitimar o seu próprio – mesmo que falso – ou os demais – mesmo que tão diversos e contraditórios -, bloqueando portanto o exercício da inteligência só para parecer tolerante diante da opinião alheia; e 3) está entre aquelas que me chamam de arrogante por dizer (da forma como eu digo) o que estudei anos para dizer (da forma como eu digo), fico então feliz que se reconheça nos meus comentários e torço para que se corrija o quanto antes. Se tiver qualquer pergunta pra mim, sobre qualquer assunto, terei imenso prazer em responder (como faço agora), ou indicar leituras, sempre que possível. Mas, assim como jamais negarei a ninguém a liberdade de falar ou escrever o que quiser dentro dos limites da lei – e sou mesmo capaz de morrer para defender essa liberdade -, jamais deixarei de criticar o que é dito leviana e publicamente, caso julgue relevante para manter ou recuperar a sanidade geral.

Ah sim: porque eu – mau como pica-pau – “julgo tudo” mesmo, de muito bom grado, ou não seria capaz de escolher nem renunciar a coisa alguma. Quando Cristo disse: “Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos”, ele se referia a julgar pessoas em sua totalidade; ao julgamento final que cabe somente a Deus, o único capaz de enxergá-las inteiramente, pesar os bens e os males que cada uma fez e atribuir-lhes uma sentença definitiva. Mas julgar atos e palavras? Ora, isso é uma obrigação moral – e tanto mais para um escritor!

Que você, para se proteger contra qualquer julgamento legítimo, acione o reflexo condicionado de me condenar por “julgar tudo”, é apenas um sintoma do quanto está contaminada pelo ambiente cultural brasileiro (e feicebuquiano), onde a maior parte das discussões se dá entre ignorantes, que, justamente por ignorarem a qualidade objetiva das coisas julgadas, tornam o juízo a respeito delas uma projeção de sua própria alma, um mero reflexo do estado de sua psique, em vez de uma representação da realidade. Vivem num mundo de “pontos de vista” sem qualquer paisagem, onde naturalmente todas as opiniões são válidas ao mesmo tempo e todos podem ser amiguinhos.

Descontaminar-se de tais ideias falsas e paralisantes, porém, é a condição básica para a participação no debate público, do qual o facebook, bem ou mal, é um dos canais influentes.

Quanto às pessoas (todas elas?) mudarem de acordo com seus interesses – o que você parece insinuar ser o meu caso -, não faço a menor ideia do que isso tem a ver com o que estamos falando, mas devo dizer que, para quem “julga” que meus comentários (todos eles?) “generalizam”, não pega bem fazer tamanha generalização.

Com carinho,
Pim

PS: Se eu publicar essa resposta como nota, trocando evidentemente o seu nome por algo como “Leitor(a)”, não repare. Afinal, não é porque meus textos não são pra você que não posso fazer com que este, que de fato é, também sirva para as outras pessoas. Um escritor não pode desperdiçar material… Um beijo!”

16 de fevereiro de 2012 às 07:56
(Retirado do excelentíssimo Escritor da Coluna da VEJA, Felipe Moura Brasil )

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